LUCINDA


 LUCINDA

26 março 2025

 LUCINDA


De: Paulo Vespúcio

 

Essa história fala daqueles momentos que o vazio invade nossas vidas e a escuridão dele nos impede de ver saídas para nossas desgraças. Onde qualquer grito, por mais alto e dolorido que seja, não alcança a piedade de nenhum coração e nos sentimos abandonados, jogados, contorcidos, excomungados para a desesperança. Quando não se sabe mais onde dói, que apenas dói e muito, que chega tonteia, nos tirando qualquer direção.

Para falar disso tudo, falarei de Lucinda, uma mulher de meia idade, preta, alta, esbelta, calcanhares rachados por conta da poeira e de sempre estarem em contato direto com o chão, por conta do desgaste de seu chinelo já bastante carcomido. Não havia recursos para vestir seus pés de outra coisa. Sempre usava um vestido simples, abaixo do joelho, com a passagem do tempo nítida em suas cores. Não havia recursos para que novas cores fossem colocadas ali. O tempo todo seus dedos se enroscavam em um cigarro de palha. Feito do que, não sei dizer. Não havia recursos para qualquer coisa boa ser enrolado nele. Tinha um cheiro bastante peculiar, que para um desatento poderia ser confundido com mal cheiro, mas de jeito nenhum, um cheiro ruim. Cheiro de quem se lava apenas com água e bucha de palha, pois não havia recurso para esfregar outra coisa ali. Sua casa, cravada no meio da floresta, com um ou dois alqueires de terra, que chamava de seu, era feita de pau-a-pique e telhado de capim. Não era o suficiente para protege-la da chuva e do vento frio. Não havia recurso para impedir o vento e a chuva de entrarem ali. No seu fogão a lenha pequenino, a muito ela só cozinhava água com maxixe, única coisa que ainda dava no seu quintal desprovido de frutos nas plantas quase sem vida. Não havia recurso para outra coisa ferver em suas panelas brilhosas. Uma vaquinha e um porquinha que eram puro osso, faziam companhia. Não podia mata-los, pois não havia recurso para comprar outras companhias. Dormia em uma esteira trançada com o pé de milho seco, onde os bons sonhos não queriam de forma algum deitar com ela. Não havia recuso para ter na noite o calor dos bons sonhos. Sentava-se sempre no degrau de madeira grossa, na entrada do rancho, para descansar do tédio. Não havia recurso para ter maior conforto ao enfrentar o tédio.

Mas ali era também o lugar onde olhava de olhos semicerrados, com a cabeça recostada no portal, o rego d`água que corria minguado à sua frente, coberto por uma armação de pau, onde um pé de chuchu ressequido se enroscava nela. 

Ali ficava, horas do dia, esperando os pássaros na floresta cantarem com sono. Esmorecida,  sempre murmurava algo que os cantos cobriam, impedindo qualquer coisa de ouvir.  O tempo era implacável com sua morosidade, fazendo seus pés se arrastarem no vai e vem de para lá e para cá, dentro do quintal e da casa.  

A solidão era sim um lugar comum em sua vida e a única possível companhia de gente, ficava a uma légua de distância de sua casa. No final dessa distância morava Maria, também de meia idade e tão solitária quanto. Não tão sem nada, mas pobre. Nunca apareciam para uma visita, para um dedinho de prosa. Para elas, idade e as léguas, se tornavam uma só, uma rocha, dura e pesada como ferro, amarrada em seus tornozelos, impedindo qualquer tentativa.  Seria preciso um motivo do inferno para que essa distância entre as duas, fosse atravessada por uma delas.  

Então restava a Lucinda somente murmurar seus gemidos e clamores, encobertos pelo canto dos pássaros sonolentos da floresta.

Curiosos, os pássaros resolveram silenciar de uma vez só, para ouvir Lucinda gemer seus clamores e talvez poder ajuda-la.  Quando Lucinda começou seus murmúrios, como o combinado, todos os pássaros silenciaram de uma vez só. Então puderam ouvir bem claro seu desejo em desespero. Três vezes, contados em seus bicos.

Lucinda- Eu faço qualquer coisa pra sair dessa minha vida miserável!

Três vezes e os pássaros não conseguiram mais cantar. Três vezes é algo que faz impossível desfazer um desejo desejado por uma boca desejosa. Bom ou mal.

E do meio do silêncio de tudo, Lucinda ouviu um atropelo de cavalo que vinha pela estrada que dava em sua casa. Uma estrada fina, de areia branca, coberta pelas copas das árvores, que no crepúsculo já aparentava noite.  Ela apertava os olhos pra ver melhor, mas em vão. Só ouvia o atropelo do cavalo chegando cada vez mais próximo.

Levantou-se assustada. Quando ergueu seu rosto, estava diante dela, bem junto da porteira em frangalhos, ainda assim uma porteira, um homem jovem, bonito, cabelos bem penteados, terno preto e sapatos brilhantes. Montava um cavalo castanho bem alimentado, escovado, vestido com uma cela e arreatas reluzentes.  Lucinda se encheu de beleza com tamanha beleza.  

O homem, com sua voz grave e aveludada, cumprimentou Lucinda, sem apear de seu cavalo e com uma de suas mãos,  sempre invisível, amoitada atrás de suas costas.  Cheia de ânimo e tão feliz, o cumprimentou, sem medo algum, admirando cada pedaço daquela imagem à sua frente.  

Percebendo a embriaguez de Lucinda, o homem abriu seu sorriso largo e com muita ternura, disse a ela que tinha ouvido uma conversa, que julgava ser um boato, mas precisava se certificar, de que ela estava passando por muitas nesescidades, privações de companhia e afeto.  Disse também que não acreditou, pois era difícil acreditar que um ser humano pudesse ficar sem tantas coisas e continuar vivendo. Mas que estava ali, para ajudá-la, caso os boatos de miséria absoluta, fossem verdadeiras, é claro.

Lucinda engasgou com seu suspiro, que atravessou sua garganta feito um espinho, forçando seu pescoço a dobrar para frente, tombando seu rosto, fazendo seus olhos derramarem lágrimas.  A única coisa que conseguiu sair de sua boca foi um espremido e doído sim,  que abriu espaço para um choro descontrolado, interrompido por soluços frequentes.

O homem aproveitou, entre um soluço e outro de Lucinda, para pedir que ela então o convidasse para entrar. Atordoada, pediu desculpas e o convidou, olhando à sua volta, procurando algum lugar onde ele pudesse se sentar. Quando voltou seu olhar para o convidado, ele já estava ao seu lado, montado em seu cavalo. A porteira ainda estava fechada. Ela estava tão feliz, mas tão feliz pelo socorro, vindo sabe se lá de onde, que nem percebeu. 

A mão do cavaleiro, escondida atrás de suas costas, é por ele revelada, empunhando uma galinha preta, grande e gorda. Ela, sorrindo, logo pensou no jantar, salivando discretamente. Antes que ela continuasse a sentir o gosto temperado do presente, o convidado a interrompeu, frustrando seu desejo de matar e cozinhar. 

Homem- Ela não deve ser morta ou morrerá com ela seu desejo. Deve ser alimentada e cuidada com extremo zelo e tudo que a senhora tanto precisa virá às pressas em seu socorro.

Entregou a galinha para Lucinda. Ela era realmente bem gorda, como o peso da fome. Ainda bem tentada a cozinhar, fritar ou assar, é novamente advertida pelo cavaleiro.

Homem- Não pode matar. Voltarei para buscar o fruto de apenas um ovo, o mais bonito deles. É este o meu desejo e condição.

Ela, concordando, mas ainda em dúvida, o que era bastante compreensível, levou a galinha até um balaio e a jogou debaixo dele, agradecendo, agradecendo, agradecendo… pelo presente. Quando Lucinda se virou para agradecer novamente, o cavaleiro não estava mais ali. Mas ela estava tão feliz, mas tão feliz, quem nem percebeu!

Naquela noite, a sopa de maxixe com água e a esteira da cana seca de milho, nunca pareceram tão gostosas. Dormiu tanto que parecia nunca mais acordar. Acordou.

Ao sair de sua casa, foi banhada dos pés à cabeça pela alegria esfuziante, alimentada por uma visão mágica. Tudo era verde e úmido. Todas as plantas, antes ressequidas, agora estavam verdes e produzindo, com fatura, seus frutos. Sua vaquinha e sua porquinha estavam gordas, com as tetas esguichando leite e amamentando seus filhotes. A vaquinha, dois. A porquinha, vários. Lucinda estava tão feliz, que nem notou. 

A galinha passou a não sair mais do colo de Lucinda, que catava tudo que entrasse, sem permissão, entre suas penas. A bichinha chegava fechar os olhos. Botava tantos ovos que parecia nunca mais parar. Pessoas da região começaram aparecer no seu rancho, que apesar de simples, agora iluminado, para comprar tudo que ali era produzido.  A fartura e a solidão estavam resolvidas.

Um dia a galinha, que agora atendia pelo nome de Preta, desapareceu. Lucinda ficou desesperada e saiu pelos matos e grotas de serra chamando por ela. Em vão. Foram dias caminhando e chamando. Quando sua voz já estava desistindo, Lucinda viu uma mancha preta sob o verde de uma moita de capim sapê. Aproximou-se. Era ela, finalmente. Abrindo bem devagar a moita de capim, sua mão foi bem recebida por Preta, que permitiu Lucinda averiguar por baixo dela. Um ovo, do tamanho do ovo de uma ema, desproporcional a capacidade do corpo de uma galinha, estava alojado debaixo dela, quentinho. Sua casca era um mesclado das cores marrom e vermelho. Lucinda chegou arrepiar. De alegria ou espanto, não sei. Arrepiou, mais que a Preta, com suas penas eriçadas de galinha choca. 

Com todo cuidado pegou a galinha, o único ovo e foi para casa com o ar entrando macio, aliviando seus pulmões e coração.

Chegando em casa, fez um ninho de retalhos de pano, embaixo do pequenino fogão à lenha. Deitou carinhosamente o ovo e sua mãe sobre ele, para depois cobri-los com o balaio. Ela não podia mais desaparecer, pois no trato estava dito que teria que ser muito bem cuidada. Depois disso, só uma noite foi necessária para que o afeto saísse de um ovo. 

Sem mais arrastar chinelos velhos, Lucinda caminha até o fogão, depois de uma bela noite de sono em sua cama macia.  Preta estava um pouco diferente e agressiva. Lucinda, depois de perceber vários cacos mesclados com cores marrom e vermelho, se aproximou com todo cuidado que uma recém mãe merece. Ergueu as penas da Preta para dar boas vindas ao que eu nunca pensei em acreditar. Lucinda, com certeza, também não.

Afastou suas mãos e corpo como se debaixo da galinha houvesse brasa e fogo.  Depois de recomposta do susto, ergueu Preta novamente e debaixo dela havia algo que se parecia, mesmo que de longe, uma criança. Preta permitiu que Lucinda tomasse em seus braços o recém-nascido. Incrédula do que via, analisava tintim por tintim daquele pequenino corpo.

Pele mesclada de marrom e vermelho, com textura das peles das lagartixas. Uma delicada crina que saia acima de sua testa, em linha reta, até entre suas escápulas. Não havia genitálias. Apenas três dedos nas mãos e dois nos pés, com unhas grossas que mais pareciam garras. Olhinhos grandes e pretos. Lucinda, mesmo perplexa, estava tão feliz, mas tão feliz, que nem percebeu.  

Com os dias e meses passando, a perplexidade de Lucinda pela criança, foi se tornando cada vez mais em afeto e amor, dando a ela o sentimento de completude. Tudo que um dia desejou, agora estava ali. O menino crescia rápido. Era grande e muito forte para a pouca idade que tinha. Com energia, risos e gargalhadas constantes, o garoto ajudava Lucinda em tudo que precisava. Desde lavar uma roupa, a fazer um novo curral para as vacas, que só aumentavam. Lucinda estava tão feliz, mas tão feliz, que não percebeu. Tudo tão bom, tão perfeito… que não tinha mais fim. Mas o fim veio, em forma de acerto de contas.  

Novamente o crepúsculo trouxe o som abafado de cascos chocando-se contra a areia da fina estrada. Seu coração congelou já sabendo o que viria. Chamou seu menino e pediu que se escondesse, que de forma alguma saísse do esconderijo. Ele obedeceu e se escondeu atrás do chiqueiro. 

Lucinda virou-se para a porteira, de frente para a estrada, à espera do cavaleiro. O som dos cascos parecia cada vez mais próximo, mas nunca chegava. Chegou. Com o sorriso largo, cumprimentou Lucinda, que respondeu de forma reticente. Tranquilo e sorridente, analisava as benfeitorias por todo o lugar.

Disse a Lucinda que ele estava contente por ela estar cumprindo o acordo. Que se tudo ali estava tão perfeito, porque também perfeito estava sendo o tratamento que ela dava ao seu filho. Não demorou nadinha ela entender que ele estava se referindo ao garoto como filho, como sendo seu e a coragem invadiu um coração de mãe, preparando-o para a batalha. Ergueu as ventas, esticou os joelhos, abriu os ombros, afiou sua língua e chamou para o combate:

Lucinda- Ele não é seu. Pode levar a galinha. Cuidei bem dela como foi nosso acordo.

 Homem- Eu quero o fruto do ovo, do mais bonito deles. Meu desejo, minha condição! Entregue o meu filho por vontade própria ou tudo que ele te deu será destruído. Perderá tudo e não terá meu filho. Com toda força de sua vontade, entregue agora.

Lucinda, sem se deixar abater pela ameaça, encheu seu peito da coragem de mãe e lança um não em forma de urro, na intenção de afastar o invasor. Olha para trás, no rumo donde se escondia seu menino, para se certificar da sua segurança. Seu corpo tremeu com um estalo vindo do chão. Voltou seu olhar para o desnaturado e ele havia se feito monstro. Seu cavalo, mesclado de marrom e vermelho, com sua crina e calda imensas e olhos negros, apoiava em cima da porteira com suas patas da frente. No seu lombo o cavaleiro. Pele com textura das peles das lagartixas, mesclada de marrom e vermelho. Uma crina enorme e esvoaçante, saia logo acima de sua testa, numa linha reta, até entre suas escápulas. Apenas três dedos nas mãos e dois dedos nos pés. Unhas grossas que pareciam garras. Olhos negros, grandes como a noite. Faíscas explodiam quando a crina e calda do cavalo, espalhadas com o bufar do animal feroz, se chocavam com a também revolta crina do cavaleiro.  Lucinda não se detinha e disparava incontáveis nãos na direção do invasor. Irritado e possuído pelas forças de onde veio, se lança do cavalo, indo as alturas, para depois cair, batendo como um tiro de canhão, seus pés no solo. Foi tão forte que o chão começou a rasgar por entre as pernas de Lucinda. O rasgo, abrindo cada vez mais em fenda, seguia procurando o menino e por onde passava deixava a desolação e morte. As árvores morreram derrubando seus frutos, os animais caíram mortos, o rego d`água secou. Lucinda teve sua última visão da felicidade, quando o chiqueiro, destruído pelo buraco que abriu sob ele, revelou seu menino assustado, sendo engolido pela cratera. Tudo acalmou, num silêncio profundo de solidão, que cobria Lucinda em prantos, deitada no chão.  

Com seus ouvidos no solo, Lucinda pode ouvir algo se aproximar, como cachorros correndo pela estrada em sua direção.  Suas respirações e unhas riscando a areia. Levanta-se apavorada, ouvindo-os cada vez mais pertos, bem pertos, juntos, invisíveis, rasgando seu vestido e suas pernas.

Lucinda correu desesperada, uma légua, que só um motivo do inferno para que essa distância, por ela fosse atravessada. Atravessou, gritando Maria. Maria, benzedora que era, e profunda conhecedora do bem e do mal que andam por aí, meteu a mão fundo em um saco de sal grosso, misturado com alho e arreganhou a porta de sua casa para socorrer a amiga. Sim, eram amigas, mesmo na solidão da distância.

Lucinda entrou na casa de Maria, veloz como só uma juventude permitiria. Maria, fecha a porta e arremessa o preparado de sal grosso na porta, formando uma cruz de cristais salgados na madeira. Os cães gritaram e depois não puderam mais serem ouvidos.

Maria disse a Lucinda que ela nunca mais poderia usar uma cor que não fosse branco, pois o branco iria deixá-la invisível para o diabo que agora a conhecia.  Assim ela fez: turbante e vestido branco, bem simples, um cigarro de palha no canto da boca e chinelo no pé, bem limpinho!  

Lucinda e Maria viveram juntas, em parceria, até seus últimos anos de vida. 

 

Texto registrado. Para qualquer tipo de uso somente com a autorização do autor.

   

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