A FERA


A FERA

08 maio 2025

A FERA


     

Uma livre leitura da obra Frankenstein, de Mary Shelley             

                                                                                                                                           De: Paulo Vespúcio

             

Existe um ser desconhecido e oculto que habita dentro de nós, um ser que alimentamos ao longo do tempo, que criamos. Um monstro interior. A sombra. Mas o que é essa sombra? Bem, a sombra está relacionada ao nosso lado sombrio, nosso lado obscuro. Nela se encontra nossos instintos mais primitivos, oprimidos e que é denominado de “eu não aprovado”, que recusa nossa mente do inconsciente. Uma pessoa não é iluminada por imaginar figuras de luz, mas por estar ciente da escuridão.                                                                         (Encosto cadeira) Meu pai era filósofo e minha mãe uma escritora, que alcançou grande sucesso por sua luta pela igualdade da mulher. Minha mãe…! 

A gravidez é um processo bem complicado, ela dura nove meses no corpo da mulher. O organismo dela sofre inúmeras mudanças e alterações fisiológicas. Depois de fecundado, o óvulo implanta-se na parede do útero, formando o embrião e a placenta que o alimenta. O processo de desenvolvimento embrionário começa com a separação 

– ela morreu após onze dias do meu nascimento –    

…em várias células.

Passado oito semanas dessa fase de gestação, esse embrião, agora conhecido como feto, começa a se metamorfosear para um corpo humano. Tecido por tecido, órgão por órgão, pedaço por pedaço, bem, bem lentamente, até ser possuído definitivamente, pela eletricidade da vida. É uma fase muito conturbada para quem deseja fazer nascer. Mudanças físicas, emocionais, quase uma loucura. É pesado carregar isso, exige absoluto controle físico e redução de movimentos.  Um homem não é forte o bastante para carregar tamanho peso.

Pensar que um ser humano surge dentro de outro ser humano, menor que uma sementinha e que vai sofrendo mutações e aumentando de tamanho, com habilidade de pensar, falar, sentir, andar, aprender, me sugeria coisas que só hoje entendo. O nascer é realmente uma obra prima. 

Eu consigo me lembrar, da forma mais estranha possível. Lá estava eu, era tudo bem fechado. Conseguia ouvir o som de respiração, lá dentro daquele líquido, naquele casulo, naquela água viscosa e transparente. Conseguia ver meu corpo encolhido, exprimido feito uma massa de pão.

Cresci.

Senti que eu precisava sair dali, precisava respirar. Então, num gesto bastante brusco empurrei, empurrei, empurrei, empurrei, empurrei e rasguei com toda a força de minhas unhas, fazendo sangrar. Meu deus como sangrava! Rasguei e saí. Que maravilha! Eu queria poder roubar todo aquele ar só para mim. 

Acho que foi naquele momento que a matei, minha mãe. 

Foram minhas unhas ou meus pulmões? Não importa! Ainda dói, dói que me quebra!

Mesmo naquele estado ela não pensava em vingança – eu no seu lugar me vingaria – era como uma loba protegendo sua cria. Me envolveu em seus braços, me cuidando, me amando, se entregando toda para mim, como um pintor à sua pintura, que mesmo o processo tendo-o sujado de cores misturadas e confusas, arrancado sua última gota de suor, ele se sente dono e apaixonado. 

Não fui feliz no meu primeiro contato com a vida alheia e nunca consegui esquecer e me perdoar por isso. 

A vida parecia se fazer cega à minha monstruosidade, me dando a alegria como companheira e muitos livros, muitos livros mesmo, de aventuras aos científicos – parecia já saber o que estava fazendo, parecia já estar me fazendo de novo. Então, por fuga ou sei lá o que, afundei o meu focinho e olhos em suas páginas, me afogando até a última gota nelas. Era uma fome, uma sede que não saciava mais! Longe de mim a pretensão de que a vida se mantivesse de olhos fechados para sempre ao meu pecado original, marcado em minhas unhas ou pulmões. Mandou, vindo de que direção não sei, a pessoa chamada infelicidade – mais comumente conhecida como madrasta – talvez dos contos de fada, escapada entre um folhear e outro.  Não que madrasta seja sinônimo de coisa ruim, mas essa era um ser incapaz de ter, um ser pior que eu. Nojenta, insuportável, repugnante, asquerosa, intragável, mas ingênua ao não perceber o potencial de aprendiz que estava ao seu lado. E aprendi. 

Usando novamente minhas unhas para cortar, me liberto do fio que me ligava à minha casa e me entrego a um possível final feliz que bateu à minha porta e que ficou e que ficaria, por toda minha vida, mesmo que só em mim. Doce ou amargo, mas que ficaria, que ficou. O amor da minha vida! Construído. Dou certeza a vocês que tudo se constrói. Tudo, mesmo que com um ponto ou outro fora do lugar.

Lado a lado, entrelaçados, lendo, escrevendo, declamando na mesma sintonia, na mesma sinfonia, na mesma música, nos casamos e nos mudamos para o frio suíço. O frio não incomodava! Aos dezessete anos havia calor de sobra. Mas toda fornalha deve ser alimentada sob risco de congelar seus próprios órgãos. Talvez o ambiente congelado tornasse escasso a matéria prima para alimentar a chama faminta. Imperdoável, mas não insuportável, somente quase insuportável. Os casamentos são assim?

De fornalha a geladeira, tudo foi se tornando cada vez mais difícil, conturbado. Aquilo que eu achava que era… não era e nunca foi! Minha alma gêmea gostava de novidades, de se aventurar, conhecer pessoas novas e experimentar essas pessoas novas. Homens, mulheres… Isso não me agradava nem um pouco. Era confuso para minha cabeça processar aquilo. Talvez hoje eu não só aceitaria, como foi na época, convivendo com tudo aquilo sem me pronunciar, mas seria um ser bem mais ativo naquela história. Não me julguem, sabemos dos nossos segredos adultos mais íntimos e sabemos o quanto o amor é capaz de nos transformar a ponto de nos tornar irreconhecíveis.  

Me mantive firme na minha posição, amando muito e aprendendo aceitar e aguentar nossa situação financeira que era péssima. Vivíamos chafurdados em contas e dívidas de todo tipo. Não tínhamos muito dinheiro. Chegamos ao ponto de vender móveis da casa pra pagar as dívidas que não acabavam nunca. Foi um período difícil, uma fase de muita discussão e muita briga. Quando já não aguentava mais e constatei que casamento não era lá essas coisas e estava à beira de desistir, ganhei o maior presente que qualquer um possa ter, o maior presente que qualquer um possa merecer, a maior dadiva de todas, desde Adão e Eva. Compensou. Gritei pra quem quisesse ouvir sobre tudo que eu havia passado e tudo, tudo mesmo que eu havia acabado de ganhar. 

Meu filho nasceu! Tão pequeno! Tão miudinho!  Estava em minhas mãos!  Quem nunca passou por isso não vai entender o que estou falando agora. Tudo em mim duplicou, me tornei maior! Tudo que doía ou alegrava ele, pegava em mim com força, mais forte do que quando em mim! Então meus braços cresceram pra formar um ninho e o coloquei dentro dele. Meus olhos, agora imensos, secavam, por só ser olhos pra ele! Não piscava! Não havia mais dia, não havia mais noite, havia ele. Agora tudo fazia sentido, apesar de todo o resto tendo perdido o seu e eu passei a existir para cuidar, criar, me entregando de corpo e alma, mas como já disse, não sou feliz no contato com a vida alheia. 

Num dia cedo, que mais parecia noite, daquelas que até o nosso nariz desaparece diante dos nossos olhos, como de costume, fui até o quarto dele para ver como estava, fazia sempre isso. Os pais sempre fazem. Entrei no quarto e me deparei com ele na cama, deitado, quietinho. Dormia como um anjo em sua cama de algodão. Não quis acordá-lo. Saí do quarto me preocupando em não mover sequer o vento e o deixei dormindo.               

Depois de um tempo – tempo de pais! Tempo de paz! Tempo de pais… sim, são bem menores – voltei ao quarto, para ver se estava tudo bem.  Novamente me preocupando com as solas dos meus sapatos, que por elas barulho não é problema, me aproximei e toquei em seu rostinho, de forma bem delicada, como se toca numa dente-de-leão, que a mínima brisa a desfaz, para não acordá-lo. Como deu certo! 

Havia esquecido da minha eficiência em fazer dormir, que minha mãe é testemunha. 

Ele estava frio. Toquei novamente. Desta vez sem respeito algum. Com força, como se toca naquilo que amamos e que sem piedade alguma deseja escapar. Frio. Então peguei em seu braço. Não havia pulso. Quase o arranquei. Encostei meu ouvido em seu peito, de vivo não tinha nada. Sem respiração. Então eu o peguei com as duas mãos, como se o erguesse para algum milagre vindo do meu desespero. Sacodi, sacodi, sacodi, sacodi e nada. Não era possível, eu fiz tudo direitinho! Eu cuidei, eu amei! Era como se um buraco enorme tivesse desabado abaixo dos meus pés e eu me sentia caindo, caindo, caindo, caia que não parava mais e tudo girando a minha volta. Tudo de cabeça pra baixo. 

Que Deus e esse? Se é que ele existe, que Deus é esse que cria e descria sua obra quando ele bem quer, montando e desmontando, pedaço por pedaço, sem pensar em mim? Gritei. Gritei tão alto e pra dentro que só os elefantes podiam me ouvir. Era oco, tão oco que meu corpo vibrava em dor. Comecei a derreter por dentro me tornando água. Lutava contra isso com medo de sendo água deixa-lo cair de mim. Nesse esforço de me conter, comecei a me derramar pelos olhos. Quanta água! Como era quente!  Por onde passava abria meus poros me fazendo mais água e meu corpo foi deitado pela fraqueza, com ele sobre meu peito. Caí de dor, de não ter mais.  Sendo eu liquido, talvez entrasse novamente em mim e eu pudesse faze-lo flor novamente no meu jardim, agora totalmente ressequido em brasa. Só quem ama o que não voltará sabe do que estou falando. 

Pela segunda vez um amor da minha vida embarcou nesse trem carcomido, escuro e em frangalhos, que vai e não olha quem ficou para trás na estação. Meu presente foi tirado abruptamente de minhas mãos junto com minha vontade de viver. Então conheci as profundezas mofadas da solidão vazia, sem nem mesmo o silêncio em mim como companheiro. Estava em um vórtice de sofrimento onde só a culpa falava, falava sem dar trégua. 

Sem comer, sem beber, sem viver… uma pedra. A minha imobilidade durou anos, até ter dó de mim. Como uma luz que vaza por uma fresta, boas novas vieram me erguendo dali. Sei que parece inadmissível para os que ainda sentem essa dor de pedaços arrancados de si, eu ter me entregado para a vida novamente. Vou tentar aplacar suas indignações, mas não se iludam, até que eu termine.     

 

A Europa passava por um período de grandes feitos e descobertas científicas. Começou se então algo chamado, revolução epistemológica, que trazia ao mundo o desenvolvimento de instrumentos técnicos como base para aumentar e apurar os sentidos humanos. A ciência tinha como essência a observação e descrição dos fenômenos naturais. A manipulação e a transformação da natureza por meio da tecnologia. Essa ciência não era uma ciência contemplativa, era uma ciência de experimentação empírica. Nela usavam instrumentos como o telescópio, o microscópio e o termômetro.                                             Nesse mesmo período, a química tomou sua grande importância, junto com a farmácia e a medicina. Pronto, foi nesse exato momento que acordei e o ânimo inflou novamente meu coração. Ele pulsou forte e me inspirou a uma vasta possibilidade. Comecei a me interessar muito pela ciência, especialmente pela vida, pela criação, pelo ser humano, pela anatomia em geral. 

Comecei estudar sobre Erasmus Darwin, um filósofo naturalista que viveu em meados do século 19 na Inglaterra. Claro que a filosofia tem tudo haver com isso. Darwin foi um grande estudioso que dedicou sua vida, a estudar a matéria morta, chamado de galvanismo. Eu estava com extremo interesse no assunto. Parece mórbido, mas qualquer um de vocês no meu lugar também ficaria. Indignação eu deveria causar se o meu luto não tivesse conseguido me colocar em alerta a tamanha possibilidade.  Então fui a uma palestra sobre o tal galvanismo, que nada mais era que um conjunto de fenômenos ligados a geração de correntes elétricas por meios químicos, para estudar todo o sistema nervoso. O professor mostrava da seguinte forma: ele havia colocado um animal morto, uma rã sem pele, sobre uma vasilha plana de metal em cima de uma mesa bem grande. 

Meu deus, parecia gente! 

Ele nos dizia que os músculos e células nervosas das coxas da rã, eram capazes de gerar corrente elétrica, que era consequência das reações químicas. Ao tocar no nervo ciático do animal morto, com um aparelho eletrostático, produzia uma contração muscular, fazendo sair faíscas no aparelho ligado à rã morta. Ou seja: aquela ativação muscular era gerada por um fluido elétrico que era conduzido aos músculos através dos nervos.  Naquele instante tudo parou, apenas meu pensamento se movia para trás e para o que poderia ser. Comecei a ligar uma coisa à outra: condução nervosa, condução elétrica e reações químicas, é igual a tirar o poder da morte sobre aqueles que amamos.

 Pagaria com todos os meus bens e com a última gota de fluido vital do meu corpo, os aparelhos e materiais necessários para a experiencia, mas nada, nada ia me impedir de executar minha tarefa. Que se danem o que iam pensar e falar ao meu respeito. Que é um desrespeito aos que morrem e um egoísmo meu que sofre em dor. Eu não estava nem ai! Minha mãe, meu filho. Custe o que custar.

Tudo deve ter um início; e esse início deve estar ligado a algo que já existiu antes. Deve-se admitir humildemente, não consiste em criar algo do nada, mas sim do caos.  A invenção consiste na capacidade de julgar um objeto e no poder de moldar e arrumar as ideias sugeridas por ele. Com todas essas informações ao meu alcance, talvez eu pudesse reanimar um cadáver; as correntes galvânicas tinham dado sinal disso; talvez se pudesse fabricar as partes componentes de uma criatura, juntá-las e animá-las com o calor da vida.

Deve ser medonho, terrivelmente espantoso, qualquer tentativa humana de imitar o estupendo mecanismo do Criador do mundo. O sucesso deve aterrorizar o artista, a ponto de ele fugir de sua odiosa obra cheio de horror, mas isso era ainda, apenas uma suposição. 

Resolvi então, com minha alma deliciosamente fervendo em fogo, pronta para preparar um fino prato, construir um laboratório enorme, no porão de minha casa, comprando todos os aparelhos essenciais ao meu experimento. Conseguem imaginar o meu empenho? Não, não conseguem, pois ele era imensurável. 

Me dediquei ao estudo da vida humana e de todas suas funções. Para examinarmos as causas da vida, devemos começar pela morte. Comecei a estudar então, todos os processos de deterioração e putrefação do ser humano. Um cemitério nada mais era para mim, que um receptáculo de corpos privados de vida e que alimentavam vermes. Me empenhei fervorosamente a examinar a causa e a evolução dessa destruição para a transformação em vida. Passava dias e noites nos cemitérios e sarcófagos, foi quando eu senti uma luz, brotar dentro de mim, uma luz tão brilhante e intensa que me entorpecia. Não foi uma visão alucinada o que afirmo a vocês, foi tão clara quanto ao fato de o sol brilhar no céu. Podia quase apalpar, estava perto, estava chegando o que seria o maior feito da minha vida e da ciência para a humanidade.

Tantas idas e vindas entre o cemitério e meu laboratório, me fez parecer que os sarcófagos tinham se tornado vizinhos do meu quintal, eram testemunhas, dias e noites do meu incrível trabalho e esforço. Num ínfimo instante, que poderia ser confundido com sorte, não fosse meu suor e infindáveis noites sem dormir, descobri a causa da geração da vida. Minha alma se elevou, dadiva concedida somente aos bons de coração, fui tão alto que experimentei o céu, com minha própria face. Minhas entranhas se contorceram como se algo de vivo tivesse sido penetrado em mim para crescer e cresceu. Tornei me capaz de animar a matéria morta, agora devo transpor e lançar uma luz no inferno. Bençãos cairão sobre mim ao criar uma nova espécie. Senti.

A urgência tomou conta do meu desejo. Tudo aquilo que estava em mim batia com força nas minhas paredes internas, forçando passagem pra vir ao mundo. Precisava encontrar uma estrutura para recebê-la, com todo complexo de fibras, veias e artérias. O trabalho seria duro e árduo, mas em nenhum momento a dúvida me tirava do caminho, era minha companheira amiga, me deixando em paz. Eu tinha a fórmula para dar vida a um animal tão maravilhoso como o homem, só me faltava a matéria prima. Eu sabia que ia enfrentar um número de empecilhos contra mim, me processando, me impedindo de realizar tal coisa. Mas nada mais fazia sentido na minha vida, apenas aquilo. Assim, sigo.

Para não ter erro, não haver falha, eu precisava de um corpo cobaia. Resolvi usar um ser de estatura gigantesca, partindo da ideia de que trabalhando em escalas maiores, seria mais fácil manipular as partes para chegar ao todo tal como a elaboração de um mapa. Assim, eu visualizei uma criatura com cerca de dois metros e meio e bastante forte, bastante viril. Um tipo corpo atlético e bem musculoso. Meu ânimo foi à loucura e se algum resquício de repulsa ao mundo dos mortos ainda existia em mim, minha decisão não precisou de ajuda para destroçá-la. Já não frequentava funerárias, necrotérios, sarcófagos e cemitérios como forma de estudo, mas como uma fera em busca de satisfazer suas necessidades mais urgentes. Todos os meus sentidos aguçaram e me tornei um tipo de predador. 

Estar imóveis não os tornavam presas fáceis, ao contrário, estavam sempre muito bem protegidos por pessoas, sempre muito bem guardados, por prédios ou alguns palmos abaixo do chão. Tinha que alcançá-los. Para isso lancei mão de meus novos poderes. Podia sentir de longe o cheiro da morte com possibilidade de vida. Passei a caminhar no escuro sem dificuldade alguma, não precisando de lanternas para percorrer os corredores entre catacumbas, meus pés treinados anunciavam o lugar certo a escavar devido a maciez do solo recém revolvido. Fui capaz de, por conta da falta de instrumento adequado, enfiar minhas mãos e braços terra adentro em busca do que era para mim, perfeito. 

  1. Hei de te encontrar, mesmo que eu tenha que quebrar todas as portas e paredes, enfrentar a grande multidão, revirar toda a terra do planeta. Hei de te encontrar. 

 Ele me ouviu, acredito e se deixou encontrar.  Um titã. Com tudo que existia em mim e que hoje não sou tão mais, faria dele uma quimera com pedaços costurados de tudo que vivi. Como fera que eu era, o arrastei, com a força da minha determinação, até meu laboratório. Começaria ali a transformação de um desejo em realidade, não tinha dúvida. Dei início a minha obra. Entendo que para vocês é difícil conceber a variedade de sentimentos que borbulhavam fervendo dentro de mim. Eu seria a primeira pessoa no mundo a romper com os laços entre vida e morte. Criar um espécime capaz de romper todos os tabus e limites.

Noites e dias sem acordar, pois não dormia, chafurdando na umidade dos sepulcros ou esquartejando animais, para aproveitar o último sopro de vida que ainda lhes restavam para a recomposição de minha criatura. Tinha perdido qualquer sensibilidade e sentimento pelas coisas, pelas pessoas. 

Numa noite de novembro eu contemplei a realização de minha obra. Com uma ansiedade que chegava à agonia, recolhi todos os instrumentos e me preparei para o momento culminante do meu experimento, que era infundir a vida à minha criação. Fazia a maior tempestade lá fora. A luz intermitente dos relâmpagos ofuscava e fazia os olhos da minha cria se mexerem. Um estalo no céu tempestuoso fez tudo tremer e ela, minha cria, quase se afoga de tanto ar. Respirou. Sim, uma respiração bem forte e um movimento convulso agitou-lhe os ombros. Queria levantar. Tão jovem e já queria levantar! Quem poderia entender o quadro das minhas emoções diante de tanta luz? Uma mãe, talvez? 

Tudo continuaria perfeito se aquele momento fosse no mínimo de longe parecido com o olhar de uma mãe, que olha seu filho recém-nascido pela primeira vez em seus braços. Lindo, independentemente de qualquer coisa. Mas nem os fleches caridosos da tempestade conseguiram aplacar meu olhar exigente. Membros malgrados, dimensões incomuns. Rosto bonito? Não, horrível. Uma aberração, da mais grotesca possível. Sua pele era amarelada e mal cobria os músculos e artérias. Cabelos negros, de um dente branco imaculado, lábios retos e roxos, bem roxos. Uma profunda fraqueza debruçou sobre mim, me debilitando a ponto de me deitar, ali mesmo, sem nenhum conforto para o meu corpo criador. Não me sentia artista como esperava. Sentia repulsa, nojo, uma extrema ansiedade e muita raiva. Dormi, ali e tive pesadelos inomináveis com tudo que perdi e que havia me levado àquele engano imperdoável. Preferia ter continuado com meu sono e pesadelos, quando a realidade me arrastou para o meu feito. Acordei. Diante de mim, a besta. Como era feio. Seu maxilar se abriu e ele murmurou alguns sons desarticulados, que lembrava uma criança doente, clamando por sabe-se lá o que e um sorriso bestial na sua face. Me refugiei num canto e lá fiquei, o resto da noite. 

Eu me via como um espírito mal, por realizar um feito tão monstruoso como aquele. Então, uma luz forte pressionou meus nervos a tal ponto que fechei os olhos. Estava tudo escuro. O que eu havia feito? O que eu havia feito? Onde eu estava esse tempo todo? Esse maldito desejo havia me consumido e me devorado. Tudo isso por uma ideia obcecada, tomada pelo meu ego. Se por uma fração de segundo a ponderação falasse comigo, de certo me diria que era uma guerra perdida o meu desejo de criar a perfeição através de cacos de vida ou de qualquer outra coisa. Que somente uma aberração surgiria de tamanha audácia. Que do perfeito estragado não poderia surgir o perfeito nato. 

Não era a primeira vez que tentei colar cacos! Como pude cometer o mesmo erro? 

O criador jamais mataria sua criação, mas não é incomum abandonar à própria sorte. Mais uma vez não fui feliz no meu contato com a vida alheia. Me preocupando em não mover sequer o vento e com as solas dos meus sapatos, que por elas barulho não é problema: abandonei. Não houve gritos, choro ou lamentos. Havia me esquecido que eu já era especialista em sair de fininho das minhas colagens malsucedidas. Novamente não me julguem, sabemos todos do que estou falando! Era apenas mais uma e eu haveria de superar, novamente, o desconforto do fracasso. 

Com quase nada de energia e com aspecto e comportamento de vítima, retornei aos laços familiares e dos amigos. Não ouve perguntas sobre meu desaparecimento, só abraços, beijos, boa comida e cama macia. Não perceberam os cacos que estavam voltando para seus braços, mas meu cansaço, solidão profunda e indizível, era tamanha que conseguia só pensar em mim, no meu reestabelecimento. Precisava me curar. Como se isso fosse possível, mas se fosse, sabia que aquele era o lugar. Tanto amor vindo de todas as partes poderia sim ser a poção mágica que novamente me tornaria uma unidade. De joelhos em meu quarto, pedia perdão e clemencia antes de deitar em minha cama e me condenar em pesadelos incessantes, noites após noites.

A- “Acaso, ó Criador, pedi que do barro me moldasses ser humano? Porventura pedi que das trevas me erguesses?”

Dias após dias, debaixo de tanto sol e afeto, sentia a melhora tomando conta de mim e eu já até sorria e abraçava com força. Ganhei alguns quilos a mais, bem perto do que eu era. Minha feição já era outra, bem melhor do que a outra, feia, de fera. Já deslizava com grande mobilidade dentro de casa e pelas ruas de minha cidade. O esquecimento parecia ter sido piedoso comigo até que um grito rachou meus ossos recém emendados e as paredes do meu ninho. Foi tão forte que me partiu ao meio. Tão novinho, apenas um botão de um pequenino cravo. Com implacável violência foi esmagado na solidão da floresta. Mais uma vez um pedaço do amor que me forma é arrancado e eu me desfaço novamente em água.  Doeu tanto essa dor que me lembrou o abandono de minhas promessas e era, só podia ser. Implorei para que não fosse a minha desgraça recaindo sobre meu ninho, mas minhas orações só foram ouvidas pela própria, maldita senhora dos esquecidos. Ela veio, furiosa e carente de mim.  

B- “Maldito ser que me criou! Por que vivo? Por que naquele instante não extinguiu a centelha de vida que você tão desumanamente me transmitiu? Por que me tirou o direito à morte, a maior das dádivas?  Uivo como uma fera. As estrelas tremulam, zombando de mim e as árvores agitam os galhos desnudos sobre minha cabeça, como em gestos de escárnio. Tudo e todos, exceto eu, descansa ou divertem-se. Com o inferno da revolta ardendo em meu peito, sem ter a quem confiar minha mágoa infinita, tenho ímpetos, qual a imagem do próprio senhor do mal, de arrancar as árvores, espalhar a desgraça e a destruição em torno de mim e depois contemplar o espetáculo da ruína. 

Entre as miríades de homens que existem, não há um só que se condoesse de mim e me trouxesse alívio. Onde está a bondade e a generosidade humana? 

A partir deste instante declaro guerra à raça dos homens e, mais do que todos, concentrarei meu ódio, apontando certeiro neste que me infringiu uma vida aleijada, desprovida de afeto e rica em solidão, arrojando-o no caos. Insensível,  dotara-me de um cérebro e um coração, de percepções e paixões, e me deixou ao léu, alvo do escárnio e da perseguição da humanidade. “Minhas viagens foram longas e sem conta os sofrimentos que enfrentei. Quantas vezes amaldiçoei minha existência! Qualquer sentimento de bondade abandonara minha natureza e eu bebia o fel da amargura. Quanto mais me aproximava de sua casa, mais profundamente sentia o espírito de vingança arder no coração. Petrificavam-se e liquefaziam-se as águas em gelo, mas eu não conhecia o descanso. Seja pelo seu castigo ou pelas leis perversas dos homens, eu agora aprendi a cometer o mal, dando vazão a meus instintos de perversidade, meus impulsos de investir contra toda a humanidade e a ti, e se necessário, perecer na tentativa de aniquilá-los. 

Só um pequeno desejo realizado poderá aplacar o monstro que há em mim, por você colocado. Me tire dessa solidão fria e profunda. Me dê o calor morno do afeto, o aperto macio de um abraço, um beijo na minha face. Sinto-me só e miserável. O ser humano jamais aceitará minha companhia, mas alguém tão deformado e horrendo como eu não se negará a isso. Me dê o amor. Me dê uma companheira e ela deve ser da mesma espécie e ter os mesmos defeitos. Você tem de criar esse ser, você tem de criar o amor e dá-lo a mim. Você deve criar para mim uma fêmea, com a qual eu possa viver no decorrer de minha existência. Somente você pode fazê-lo, e exijo-lhe isso como um direito que não me deve recusar ou continuarei destroçando tudo que você mais ama. Os musgos, as folhas secas e as árvores testemunharam o momento em que ceifei a vida daquele pedacinho de luz, matando uma parte de você. Se isso me negar, esfacelarei todos os pedaços que te fazem vivo, um por um, tornando sua vida uma vida aleijada e de uma solidão indizível como a minha. Me dê amor, não seja tão cruel!

A- Monstro, como pode ser tão cruel? Recuso-me e não há mais tortura capaz de arrancar de mim o consentimento. Você pode tornar-me a mais miserável das criaturas, mas nunca me aviltará a meus próprios olhos. Acha concebível que eu vá criar outro ente como você, unindo-os no mal e fazendo-os capaz de transtornar o mundo? Vá-se aberração perversa, eu te deserdo! Não te reconheço como sendo meu, criatura horrenda de coração. Você não merece o amor, jamais o reconheceria. Assassino. 

Vá-se! Minha resposta está dada. Pode torturar-me, virar minha pele pelo avesso e todas as minhas entranhas, porém jamais conseguirá de mim o que pretende. Fera odiosa saída do meu desespero, não te quero mais. Evapore e leve consigo toda minha dor usada para costurar os pedaços que te formam. Não te quero mais. Se me fosse dado o poder te daria nesse instante a morte que por mim desejada desde o seu nascimento. Vá, cria malcriada do meu ego e me deixe esquecer deste erro. 

Cada palavra que pronunciei naquele instante, bateu forte como em mim e o remorso cobriu minha ira fazendo eu acariciar minha cria com um sim. Entendo bem de solidão. Por um instante pensei ter visto aquele rosto cinza corar e um tímido sorriso espalhar em seus lábios antes dele desaparecer correndo, meio que em saltitos, que lembrava e muito a felicidade. 

Me perdoem, sei que os instintos mais ferozes nos cobram vingança, mas acreditem, era insuportável a ideia de eu matar novamente. Não importa se com minhas unhas, ou pulmões… ou com meu desprezo. Era meu, mesmo que com um ponto ou outro fora do lugar. Mesmo sendo o mal absoluto sobre mim, sobre os que amo e que me faz tremer. Nossas crias costumam nos assustar bastante, principalmente quando as semelhanças são reveladas. Não é verdade? Naquele momento não, não conseguiria matar! Naquele momento não.

 

Dias e semanas se passaram e eu não conseguia reunir a coragem necessária para dar início à minha nova obra. Eu temia decepcionar meu demônio e provocar sua vingança, mas era difícil vencer o meu asco, o medo pela tarefa que me impusera e a minha já sabida incompetência no contato com a vida alheia. O que poderia nascer disso se não o torto? Então pedi socorro e refúgio para a solidão, que nunca estava a uma distância que não pudesse me ouvir. Mergulhei fundo em um calabouço aberto e trancado por meus pensamentos. Lá permaneci em um canto, unhando minhas feridas e protelando meus compromissos, na ilusão que pudessem me esquecer.  Queria esquecer! A tristeza é um lugar profundo, mas não o suficiente para que a felicidade não nos alcance. 

Depois de meses me escondendo com minhas dores, protelando e protelando, ela veio em forma de um par mãos protetora e carinhosa, que não me negou um abraço, que gostava de deitar meu rosto entre elas e de me chamar de amor, desejosa de ter meu corpo e alma eternamente em seus braços. Pronto, a luz caiu sobre mim, como em tudo à minha volta. Um milagre, sabia que era! Vivemos dias felizes, desprovidos de todo o mal que assola o mundo ou imunes a ele. Respirávamos o mesmo ar, nossos corações se abraçavam na hora do abraço e contávamos suas batidas. 

Não tenho qualquer dúvida de que ninguém, em qualquer canto do mundo, já tenha sentido o que senti. Somente os apaixonados. Sua vinda arrancou de mim todas as responsabilidades e me fez criança. Os campos floridos, os riachos e os animais silvestres eram cumplices de nossa felicidade, cercados e protegidos por enormes montanhas. Nada nos alcançaria, muito menos as dores de minhas perdas e os riscos de tantas outras. 

Estar tão perto da felicidade, de tudo tão puro, majestoso e belo à minha volta, me fez repensar na promessa que fiz ao meu mostro. Difícil a ideia de duplicar algo tão horrendo, maligno e apresentar tal coisa à perfeição da natureza, como algo saído de mim e imposto a ela. Tentei, juro que tentei, mas o asco e o receio de estar dando luz a mais um monstro que iria se voltar contra toda a humanidade, não me deixou prosseguir. 

Dias e dias felizes ao lado do amor, pronto para consumar tamanha felicidade em união eterna, quando as consequências do meu descaso, do abandono de minhas promessas, vieram atropelando tudo, destruindo mais uma vez meu paraíso recém-construído. Meu grito, que implorava por felicidade, nem se quer conseguia atravessar o limite dos meus lábios.    

Entrou pelas minhas vísceras. Podia sentir tateando rumo ao meu coração, era lá que queria chegar. Uma mão morta e inconformada, buscando todo o calor que restava da minha vida.

Quando atingiu seu alvo, quase não cabia dentro dele.  Fuçou por todos os cantos até descobrir, mesmo que já faltando pedaços, o que fazia dele tão grande, pulsante e quente. Por mais que eu desse pistas falsas ou tentasse esconder, foi só encontrar e começou, com suas unhas imundas e envenenadas de solidão, esfacelar meu coração moribundo de tanto perder, por dentro, com beliscões, que a cada um deles arrancava pedaços que não haveria mais como costurar. Me contorcia de desespero aos gritos e rolava pelo chão, me embolando com o demônio que me possuía e matava tudo que eu era, todos os meus amores.  Enfiava meus dentes na terra e gritava meu desespero para o mundo inteiro saber da minha dor e assim talvez viesse o socorro de alguma parte. Não veio, não podiam mais me ouvir. 

Agora sei o que é ser um morto, sei o que é a mais pura solidão. É não ser mais nada.

Como um morto me ergui com puro ódio implacável, fornalha que agora me mantinha em pé e dei meus primeiros passos, como uma criança que aprende a andar, rumo ao que me restava. Vingança. Alguém de vocês já sentiu o desejo de vingança? Sim? Mas não esse! Esse é infernal, porque não ferve, porque é a mais profunda ausência do amor. A coisa mais próxima do suicídio. Se necessário for, me matar, pra você morrer.  

Naquele momento condenei meu monstro à morte e nada conseguiria me deter. Mesmo sendo meu monstro e a distância entre ele e eu fosse tão próxima e disso tinha clara certeza, não podia mais protelar minha jornada e destruí-lo de vez. 

A- Pela terra sagrada em que me ajoelho, pelos espíritos que vagueiam e pelo poder superior que te preside, ó Noite, juro perseguir o demônio que causou tanta desgraça, até que um de nós pereça; para isso preservarei minha vida. Eu vos exorto, ó espíritos errantes, a ser os mensageiros da minha vingança e ajudar-me a cumprir minha missão! 

Mal acabara de pronunciar esse voto, uma voz bem audível, como se falasse junto aos meus ouvidos, se fez ouvir: 

B- Estou contente, mísero! Você resolveu viver e estou contente.

Pude distinguir sua forma fantástica e horrenda, que fugia a uma velocidade incomum, me convidando para um embate. 

Parti em seu encalço, numa perseguição que se prolongou por muitos e muitos meses. Guiado por pistas inconsistentes, acompanhei-o, em vão, por entre as sombras, vales, montanhas, rios, mares e sempre que quase o alcançava com minhas mãos sedentas de morte, não sei por que estranhas artes, suas ou de Satanás, voltava a desaparecer.

Outras ocasiões, como se tivesse o intuito maligno de prolongar a perseguição e temesse vê-la terminada pela minha morte ou meu desespero, ele próprio se incumbia de deixar alguma pista na brancura da neve que caía inclemente. Frio, fome e fadiga eram o sofrimento mínimo que me estava destinado. 

Que maldição implacável caíra sobre mim, me condenando a carregar meu próprio inferno? Não seria isso inerente apenas à minha própria natureza? Um carma? Sentimentos tão horrendos que pareciam tão familiares! Meu monstro ciente de seu propósito, me arrastava, me alimentando com migalhas deixadas no caminho e me protegendo rumo aos gelos eternos, onde senti o flagelo da geada e do frio que se intensificava a um grau quase insuportável. Mas eu não conseguia morrer, o frio em mim já existia como vida. Minha caçada parecia não ter fim, como a decisão de destroçar meu monstro infernal e cruel. 

Às vezes parecia tão próximo que sentia seu cheiro de carne morta, mas meus olhos eram cobertos pela névoa gelada e lágrimas de puro ódio. Meus olhos não o viam mais, há meses, mas eu nunca parava, precisava destruí-lo. Já nem me lembrava mais do porquê, mas precisava. Depois de todos os meus recursos se esgotarem, de não saber e poder mais voltar, deitei-me sobre o gelo, imóvel, esperando a morte que não vinha. Ele sabia que era incapaz de me matar, pois já era de gelo também. Meu ódio, extremamente frio, me fez bloco e me fez parar. Ali, com o céu me olhando confuso, sem entender o porquê fui tão longe para achar o meu monstro frio e cruel. Precisei ter meu corpo congelado para parar e poder ver. Estava sempre tão perto e só agora sei. Nesse momento, o gelo apiedou-se e abriu uma cama abaixo de mim e me guardou dentro dela, de onde meu monstro não poderia escapar. Não fui capaz de escapar do meu monstro, de perdoar ou entender os amores que matei.

 

Hoje, mesmo totalmente ciente de minhas monstruosidades, de minhas tentativas equivocadas e egóicas de endireitar o que não se arruma, ouso agradecer a natureza que me condenou a ser assim e dizer obrigado a ela por me ter feito assim, com essa loucura que queima, com essa força divina que me impede de abandonar o que é de natureza meu. Se necessário for, como se mostrou, morro rastejando pelos cantos do mundo atrás de qualquer fagulha e sobras que um dia me pertenceu e sempre pertencerá. Sim, pago com minha morte, mesmo que seja uma jornada perdida, mesmo eu sabendo disso, pois… sou uma filha, uma mãe e uma mulher cansada de perder. 

 

 

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