A ASSOMBROSA ESTÓRIA DO TIÊTE


A ASSOMBROSA ESTÓRIA DO TIÊTE

10 maio 2025

A ASSOMBROSA ESTÓRIA DO TIÊTE


                                                                                           De Paulo Vespúcio

 

O monstro que vive dentro de nós, esse descompasso de treva e luz, não é o protagonista desta história, e sim um espírito que de algum lugar veio para pedir e dar amor e abrigo. Branco, nascido do preto. Incrivelmente poderoso, por ser feito, unido em partes iguais, de imenso bem e imenso mau. Um espírito indestrutível, antigo e de uma potência incomensurável. Quando raramente nasce por aí, é caçado pelos descompassados, ainda em sua forma infantil, para virar amuletos de proteção, prosperidade e boa sorte. Mas, em algum momento, essa caçada poderá levar a um lugar de perda absoluta para os caçadores, pois o branco nascido do preto ofusca os caçadores, deixando-os cegos para o que parece morto. Essa afirmação ficará clara e indiscutível, antes que o ponto final seja dado a essa história.

Aconteceu em um vilarejo nas profundezas de um Brasil remoto, cheio de florestas, crendices perigosas e pouca gente. Pouquíssima. Vinte casas era o máximo que se podia contar, posicionadas num grande círculo. Feitas de madeira pesada, barro e cobertas com capim, para suportar incessantes chuvas e calor. Seus limites esbarravam com os das matas, num convívio ainda harmonioso. A permanente lama separava um lugar do outro e separava também as pessoas, em constante mal humor. Bom dia, boa tarde, boa noite pareciam bastar, e os olhos se voltavam novamente para o barro. Um lugar, certamente, de pessoas tristes. Uma bomba de fogo, cravada na umidade verde.

Depois de uma chuva torrencial, com o solo encharcado mais do que de costume, um casal de pretos, molhados e com frio, se aproximou do povoado, vindo por um caminho muito estreito, única entrada e saída do lugar. O homem arrastava uma pequena carroça, cheia com seus pertences não menos ensopados.  A mulher abraçava seu corpo trêmulo, olhando para as pessoas que os olhavam com olhares curiosos e de repreensão. Um clima tenso foi crescendo e os homens do lugar logo pegaram cordas, chicotes e investiram na direção do casal. O homem preto, mais que depressa, sacou de um embornal um papel embrulhado em couro fino e apresentou ao homem que parecia ser o líder deles. Lendo o documento, constatou ser a carta de alforria do casal recém chegado. Com o olhar, freou cordas e chicotes afoitos por castigo. Com cara de asco, devolveu o documento e avisou que poderiam ficar, mas não poderiam morar dentro do povoado. Aceitando a sentença com resignação, o preto, tão preto como a noite, alto e esguio feito uma palmeira, se apresentou como sendo Tiête e à sua mulher como Zeferina. Voltou a arrastar sua carroça pelo barro espesso, entre olhares silenciosos, com objetivo de atravessar o lugar de um ponto ao outro. Antes de darem dez passos, Tiête parou e, sem olhar para a população, disse que fazia remédios para todo tipo de doenças e picadas de cobras, com plantas e raízes. Sem pronunciarem uma palavra, o povo aliviou suas expressões. O casal então atravessou o povoado e se embrenhou na floresta.

Lá bem dentro da mata, no meio de uma pindaíba, Tiête e Zeferina, abriram uma pequena clareira a golpes de facão. Durante alguns dias dormiram embaixo da carroça, enquanto construíam sua casa com paredes feitas de bambus e coberta com as folhas do buriti. Cada trançado das palhas e dos nós que amarravam os bambus recebiam uma cola poderosa feita de suor e ternura. Um cantinho do mundo onde as plantas transpiravam suas resinas, exalavam os odores de suas essências medicinais para dentro dos narizes do Tiête e de Zeferina, treinados na alquimia. Uma casa pequena, bem pequena, com apenas um cômodo, que serviria de sala, quarto, cozinha e local onde iriam preparar seus unguentos e poções.

Com seu lar pronto, rapidamente desceram da carroça todos os seus materiais de trabalho, antes de qualquer outra coisa. Faziam isso em silêncio, num ritual de total respeito. Pilão, tachos, garrafas, raízes, ervas, cascas de árvores, sementes, venenos… tudo que um remédio precisa para ser feito e agir com eficiência. Não eram mesmo de muita conversa, a sintonia era fina, para além das palavras. Nem era preciso combinar para saberem que ali é isso, aqui é aquilo, que esse é acolá… e tudo ia ocupando seus lugares perfeitamente dentro da pequenina casa. Sem esbarrões, sem tropeços, sem esforço. Um lugar onde o amor escolheu para compartilhar moradia.

Não demorou o som do pilão ecoar, triturando, moendo e retirando o que de melhor tem na floresta, para beber, para esfregar, para banhar, para curar. No vilarejo todos saíram na lama para ouvirem o rufar do pilão que vinha de longe e ali ficaram, ficaram, ficaram… Sabiam da importância daquele som, mesmo assim, não sorriam.

Ouviram durante dias, quietos, com olhares fixos na direção do barulho pulsante, até que Tiête e Zeferina silenciaram o pilão e apontaram lá adiante, saindo da floresta. Foram recebidos pela população atolada na lama, com barro ressequido, talhado até seus tornozelos. Ninguém soube quem daria o primeiro passo. De um lado Tiête e Zeferina, do outro a população confusa entre a necessidade e o nojo. O impasse teria que ser quebrado, e foi o lado aparentemente mais frágil que cedeu. Zeferina, seguida por Tiête, apertou pesado seus pés no barro e puxou forte a carroça, entrando decidida no vilarejo. O povo se atirou, avançando nas garrafas de remédios, sem nem mesmo saber pra que servia, enfiando garrafas nos sovacos e onde mais desse. Dinheiro não foi o problema, receberam mais que o suficiente. O problema foi não terem recebido nem um muito obrigado ou uma troca de olhar afetuoso. Num estalar de dedos, e estavam sozinhos em meio ao lamaçal, com a carroça vazia. Deram meia volta e saíram dali flutuando.

O som, vindo da floresta, produzido pela batida compassada da mão-de-pilão, esculpida em madeira nobre, ditava os minutos, horas, dias, meses e era o único marcador de tempo para o vilarejo, já acostumado com aquela pulsação feita de trabalho.

Além de remédios, Tiête e Zeferina passaram a caçar e plantar para abastecer o povo da lama com seus produtos, pois o calor e umidade constantes tinham tornado aquela gente morosa, fadigada, tirando seus ânimos para o trabalho. Toda semana, sem falta, no mesmo dia e mesmo horário, o eixo da carroça, besuntado com sebo de vaca, assoviava, anunciando a chegada dos mantimentos no vilarejo. Agora, mais lentos, pois o costume faz essas coisas, as pessoas enlameadas se aproximavam de olhos baixos, fitando apenas a carroça e seus produtos. Compravam e partiam sem o obrigado e sem o olhar afetuoso.

Certo dia a mão-de-pilão começou a rufar duas vezes a cada batida, uma forte e a outra pequenininha. Zeferina foi a primeira a perceber. Chamou Tiête e mostrou, deitando seu ouvido na barriga dela. No ritmo da minúscula batida, ele começou a dançar enquanto Zeferina gargalhava vendo a felicidade do marido. O povo da lama, sempre tão indiferente com o casal, nem notou a mudança nas batidas ou qualquer mudança.

Bem mais felizes do que de costume, os dois trabalhavam produzindo seu sustento e agora também pensando no doce motivo que estava por vir.

As batidas, vindo da barriga de Zeferina, foram ficando tão fortes, que aos poucos se fundiam com o som das pancadas secas que ecoavam, vasando de dentro da parede do pilão. A impressionante força que a criança em formação mostrava, causava uma expectativa crescente, pois diante do conhecimento que tinham sobre o mundo natural, não parecia natural. Essa transformação, dentro de Zeferina, aguçou e muito sua percepção sensorial e agilidade para produzir novos remédios cada vez mais poderosos. Tiête a observava sem ser notado, curioso com o aumento enorme do dom que já habitava nela. Zeferina passou a não mais usar o pilão. Usava as próprias mãos e dentes para triturar e moer, tirando com delicadeza as essências de tudo que a cercava. Entrava em transe ao apertar e esmagar.

Zeferina foi ficando pesada, sem mobilidade para o trabalho e idas ao povoado. Ninguém notou sua falta. De fato, só foram vistos mesmo, quando chegaram pela primeira vez no vilarejo, pois eram pretos e dariam uma ótima distração festiva e espetacular de espancamento. Assim, meses se passaram.

Chegando em casa, após sua ida ao povo da lama, ele viu Zeferina sentada debaixo de uma bananeira, mirando seus olhos e com uma luz ofuscante saindo de dentro de sua barriga. Era tão forte que Zeferina parecia um candieiro queimando em brilho. Aproximou-se e gentilmente tocou na barriga dela. A luz se extinguiu imediatamente e Zeferina gritou, alto, bem alto, alto mesmo, para o filho nascer. Em seguida silenciou, e junto dela, o mundo inteiro. E Tiête acolheu a criança em suas mãos trêmulas. Era de uma brancura indescritível. O céu morava em seus olhos e o sol em seus cabelos crespos e dourados. Uma menina.

Ele ergueu seus olhos em lágrimas para entregar sua filha à mãe, quando notou a imobilidade morta e assustadora de Zeferina, escorada pela bananeira.  Ainda ajoelhado, estendeu suas mãos carregadas de filha, para que talvez, dessa forma, Zeferina abrisse os olhos e  pegasse em seus braços. Assim ficou, um bom tempo, um bom tempo mesmo, o suficiente para desistir.  Então aninhou devagarinho a menina sobre as mamas da mãe. A filha, recém chegada, agarrou com força e com uma fome tão grande, que as sugadas atravessaram o corpo de Zeferina, fazendo a bananeira murchar e morrer. Sugou tudo. Anestesiado pela dor, Tiête deitou Zeferina ali mesmo, deitando ao seu lado, com a filha entre eles e dormiu de tristeza.

No dia seguinte, rasgou o chão e, lá no fundo, como a uma semente, plantou Zeferina, cobrindo-a de terra macia e molhada.

Agora, pai e mãe, se ocupava mais com a pequenina Branca, nome por ele dado, do que com suas poções e unguentos. Diminuiu e muito suas idas ao povoado, só o suficiente para comprar leite e tecidos para embrulhar sua filha, amante do calor. Tão miudinha, com sua moleira ainda aberta, não era aconselhável ser levada a lugares enlameados e insalubres. Assim, enchia de leite a barriguinha da Branca e a colocava para dormir. Amarrava porta, janela e rodeava a casinha dando sete voltas para um lado, sete voltas para o outro, enquanto queimava um chumaço de guiné, benzendo contra qualquer mal que ousasse aproximar. Ia com um pé lá e o outro sem tirar do lado da filha. O tempo que ela dava não era maior que isso.

Branca crescia e a necessidade de ganhar dinheiro para o sustento também.  O pai amoroso precisava dar mais atenção aos seus clientes, passar mais tempo durante suas idas no povoado da lama. Então abarrotou sua carroça com produtos ainda feitos por Zeferina, amarrou um pano atravessado em suas costas, onde colocou a menina Branca. Lá foram eles, ouvindo a música cantada pela floresta.

Chegando no vilarejo, tudo correu como de costume. Tiête não existia para eles, só a carroça e as garrafas. Até que Branca chorou, algo que não fez nem no dia do seu nascimento. Esperneando dentro do tecido, deixou escapar seu bracinho da cor de algodão para fora da trouxa, fazendo olhos arregalarem perplexos. Naquele dia, Tiête não vendeu nada e, muito acanhado com a reação daquela gente por conta de sua filha, pegou o caminho de volta para casa, sob olhares constrangedores. Ou seria olhares famintos?

As idas de Tiête e Branca ao vilarejo não estavam sendo produtivas, pois todos só tinham atenção para a menina Branca. Babavam uma saliva rala, olhando para ela. Nem piscavam. Tiête ficava furioso. Não porque todas as atenções estavam voltadas para sua filha, não, mas porque não queria que ela fosse transformada em uma atração mambembe. Era apenas sua menina Branca, uma menina branca com cabelos crespos feitos de sol! Então resolveu que não a levaria mais ao povoado das pessoas da lama. Ficou semanas sem aparecer por lá, criando coragem e encontrando uma forma de deixar sozinha novamente a frágil e pequenina filha.

A necessidade não estava dando trégua para dúvidas, ele tinha que decidir logo.  Afinal, dentro do pequenino casebre tinha uma rainha que não sabia o que é esperar.

Ele se vestiu de coragem ao som dos bichos da floresta acordando. Alimentou Branca e a deitou em seu ninho feito apenas com capim santo e forrado por um amontoado de tecidos caprichosamente limpos. Abençoou sua pequenina com um cheirinho na barriga e um beijinho na testa. Juntou em sua carroça tudo o que podia e que aquela gente precisava. Amarrou com força, porta e janela da casa, dando nós e rezas para trancar. Lá se foi olhando para trás, até não conseguir mais olhar.

Como nunca havia acontecido, ao chegar no povoado puxando sua carroça, foi recebido com simpatia. Ao contrário de antes, as pessoas não mais se arrastavam pesadas no lamaçal, deslisavam agilmente sobre ele, na direção do preto curandeiro. Experimentavam seus produtos, pediam informações sobre a utilidade de cada um, como fazer uso… Ele quase explodiu de felicidade ao ver o interesse de todos pelos detalhes de sua alquimia.  Ainda não o olhavam nos olhos, mas para ele, que ainda não havia recebido tanto carinho daquela gente, estava mais que satisfeito, sentindo uma porta se abrir para uma boa relação. Papo vai, papo vem… se lembrou que Branca estava sozinha em casa. Despediu-se de todos e arrastou sua carroça rumo à pindaíba.

Chegando em casa, guardou sua carroça no lugar de costume e rapidamente empilhou em um canto os vasilhames vazios de remédios, devolvidos por seus clientes. Desatou os vários nós que prendiam a porta do casebre e foi até onde Branca dormia. Antes que caísse sobre suas próprias pernas, sentou-se em um toco que servia como banco, ao lado do bercinho. Um suspiro rasgado encalhou em sua garganta, que com um grito banhado por um rio fervente e espinhoso de lágrimas, jogou todo, de uma vez só para fora. Tão forte que ele precisou firmar com as mãos sua face, para que ela não desprendesse de seu crânio. O Vilarejo freou, olhando rumo à floresta e ao grito.

Tudo trancado, tudo amarrado com nós cegos benzidos, apertados com o amor e a preocupação de um pai cuidadoso. Mas não foi o suficiente. Do lado do berço da Branca, as varas de bambus, que formavam as paredes do ranchinho, haviam sido afastadas violentamente, para dar passagem ao ladrão cruel de seu anjinho menina. Depois da paralisia gelada que queimou seu corpo da cabeça aos pés, levantou-se e saiu porta a fora à procura de sua filha, esbaforindo o mais puro ódio infernal, que torrava ramos e flores por onde passava.

Não foi preciso mais que alguns passos, e começou a seguir uma pista que o guiava para dentro da floresta profunda, marcada com farrapos das roupas e do berço da pequenina. Logo os pedaços, alvos como as nuvens, haviam sido transformados em sangue, muito sangue! Ele já sem esperança, se abaixou e, aos berros, enfiava os braços na terra, puxando a floresta pelas raízes, matando, sem dúvida alguma, para ele, a culpada por tamanha desgraça.

Voltou para casa sabe-se lá como, pois seu corpo e alma haviam sido empurrados para o vazio profundo, para o nada absoluto. Estava certo que a floresta e suas crias, tinham roubado sua filha para ser feita de alimento com indescritível dor, transformando em pura carne o último anjo que o fazia vivo.

Trancou-se dentro de casa para gemer e gemeu, gemeu, um gemido tão grave que fez o ar tremer, ao ponto de quase poder ser apalpado. Tirou de vez, num único solavanco, a paz de tudo. Os animais da floresta e do povoado não produziam mais som algum, e as pessoas da lama começaram adoecer de todas as pragas que as mazelas provocam.

Vez ou outra, algum dos habitantes da vila de pessoas tristes, levado pelo desespero, em busca de algum remédio que salvaria um filho, um marido, uma esposa ou até mesmo um animal doméstico, ia até a casa do Tiête, mas não conseguia chegar. Os gemidos eram tão fortes que era impossível atravessar o campo mágico feito de dor e perda, que cercava o casebre.

Sem tempo para parar, o tempo parou para as lamurias escorrerem por todos os lados que faziam da pequenina casa um lar. O pilão e sua mão, esculpidos em madeira nobre, não marcavam mais os minutos, horas e dias. Parou. Tudo parou, menos a dor.

Numa noite clara de lua, cravejada de estrelas, um barulho estranho do lado de fora chamou sua atenção. Se apoiando nas coisas dentro de casa, possuído pela fraqueza, foi até a porta de entrada e a abriu. À sua frente, uma visão que quase arrancou dele seu último sopro de vida. Uma bola feita de luz e escuridão, do tamanho de uma panela pequena, vibrava e pulsava no ar. Ora luz, ora escuridão. Pairava a mais ou menos um metro e meio acima do chão banhado de tragédia. Seus braços enfraquecidos imediatamente começaram a dançar à sua frente, espalmando as mãos, enquanto evocava as forças de seus ancestrais, benzedores encantados. Entoava cânticos mágicos na sua língua natal, lançando sobre a esfera pulsante que vibrava, feitiço que a impedia de se adiantar. Isso fazia com que ela reagisse entrando em um frenesi hipnótico, vibrando e pulsando cada vez mais rápido. Uma batalha entre forças titânicas. Até que de dentro da esfera veio um sussurro com a palavra papai. Desconcentrou. A esfera então avançou como uma bala de canhão, penetrando o corpo do Tiête na altura do estômago. Pronto. Os animais noturnos voltaram a ser ouvidos, e ele se ergueu ereto, reestabelecido, e foi para sua cama dormir. Deitou-se tranquilo, acariciando lençol e travesseiro. Dormiu.

Seus olhos se voltaram para dentro de seu corpo. Teve visões alucinantes. Via como se o olhasse pelo avesso. Aquela energia foi se multiplicando, partindo-se em frações muito além do invisível, do indivisível. Penetrou em cada célula e átomo de seu corpo, fazendo doer, muito! Se contorcendo e urinando de tanta dor, começou a rasgar, com suas unhas e dentes, lençol, colchão, a parede ao lado de sua cama… até que não suportou mais e se arremessando colocou-se de pé.

Seu corpo oscilava em luz e escuridão, sua alma em fúria e bondade. Saiu alucinado, esfarelando tudo que vestia, procurando conforto ou socorro. Disso até hoje não sei. Correu, correu, até o dia entrar, dourando os galhos da floresta. Tombou em desmaio, se misturando às folhas podres no chão.  Ali descansou por um dia ou dois. Poderia ser bem mais se uma mão não tivesse varrido as folhas que o cobriam, tirando-o de lá.

 

– Acorda.

 

Ele abriu os olhos. Bem perto de seu rosto, um rosto, enrugado e colorido pelas cores das sementes. Cabelos pretos lisos e brilhantes, pele morena avermelhada e um cheiro acre e verdadeiro de gente, forjado nas matas. Apoiado nos ombros do velho pequenino, foi levado com muito cuidado e respeito.

Debaixo da copa de um Tamboril, árvore colossal que é, o velho feiticeiro morava, longe dos homens e perto de tudo. Histórias contam que o pequenino enrugado, de pele colorida, foi arrancado de seu povo e escravizado pelas pessoas da lama, até que com ajuda de alguns encantos criados por ele, conseguiu escapar. Procurou sua gente, mas eles haviam fugido de medo, sabe-se lá pra onde.

Tiête foi alimentado como se alimenta um rei. Carne de queixada, papa de mandioca, frutas da floresta e chá de geleia real, cedida pelas abelhas. A fome era tanta que nem se perguntava o porquê de tamanho carinho. Comia, comia, dormia, dormia… com o pequenino feiticeiro sempre ao seu lado, com os olhos ocupados em proteger o convidado.

Com o corpo amolecido, de tanto comer e dormir, finalmente olhou para o seu anfitrião. Se olharam até que Tiête quebrou o silêncio. Atordoado, confuso, se perdia nas palavras tentando explicar o que estava dentro de seu corpo e que o invadiu depois do acontecido com sua menina Branca, da cor de leite e cabelos crespos feitos de sol, nascida dele e da mãe preta, Zeferina.

 

– É ela, acho qué é ela! Escuto ela falá cumigo!

 

O feiticeiro rapidamente interrompeu o preto gigante, puxando-o pelos braços até se ajoelhar. Queimou vários tipos de ervas em volta do Tiête, pronunciando palavras mágicas e assoprando fumaça em seus olhos e narinas. Assustado e transpirando, alertou Tiête do que estava acontecendo e a responsabilidade que tinha com o que havia lhe escolhido.

Disse que Tupã, quando criou tudo que existe, criou também espíritos muito poderosos de onde nasceriam todos os outros mais simples, que habitariam os mundos. Explicou que por ter vindo através dele e de sua mulher, essa entidade encantada, de poderes inimagináveis, tinha se fundido não só ao seu corpo, mas também ao seu espírito, antes, simples. Jamais se separariam. Que esses seres, brancos, nascidos do preto, bordados por Tupã com delicadeza, um por um, raramente nasciam entre os homens. Guardiões feitos em perfeito equilíbrio de opostos, para manter irretocável toda a criação. E assim deveriam ser mantidos, sem provocações, pois do contrário emergiria deles o que há de mais feroz.

Alertou sobre a escuridão e a luz, as forças mais poderosas e antigas da coisa universal, que agora nele habitava. Que a escuridão do caos, mãe do todo, deveria ser controlada, mas não impedida. Para que fosse pacificamente controlada, tinha que ser dado a ela a noite mais longa, fria e escura de todas as outras. Que ela não poderia estar no corpo do Tiête nessa noite, nunca, que deveria sair, teria que sair ou a escuridão dominaria a luz, quebrando o equilíbrio natural com consequências imprevisíveis. Um risco que não poderia correr, pois nesse dia a escuridão profunda reinaria forte, suprema. Fora ou dentro dele.

De forma enfática, o pequenino colorido, com seu ânimo alterado, continuou a orientar Tiête, que ouvia numa mistura de incrédulo e crente.

 

– Um muncadinho inantes de cumeçá a noite mais cumprida, iscura e fria de todas ôta, percure um animali quarqué deitado e ispanta ele, deitano na mêma horinha no lugar, robano o calori quêle dexô. Ocê vai ripití tim tim por tim tim da resa queo vô te inciná agora, rolano pro riba da quentura. Tem que sê um lugar iscundido, pruquê ocê vai ficá  largado sem ninguém pra te acudí. Vai tá alejado, pruquê só a luiz vai tá dento docê, e o breu totale vai tá dento do bixo cocê isconheu. Cê vai falá do jeitim quêu vô te inciná agora, sem errá nadinha, nadinha, nadinha de nadiquinha.

 

Nisso, o velho colorido começou a pronunciar evocação. Palavras tão poderosas que o céu rachou, e uma ventania se contorceu em volta dos dois, produzindo um assovio melódico de reza feiticeira. Tiête começou a vomitar, enquanto seus olhos e face inchavam. Seu corpo se embolava em cãibras. O grito de dor era tão duro que não vasava por sua garganta, explodindo dentro dele.

Com uma baforada, tirada de seu cachimbo, o feiticeiro assoprou no rosto do Tiête e ele relaxou entorpecido, olhando fixamente para o seu anfitrião. Tudo em volta começou a se movimentar de forma enebriante, transformando lentamente no interior da casa do Tiête. As paredes, sua cama, pilão, tachos, garrafas, o fogão feito de barro… e o velho aos poucos foi desaparecendo diante dos olhos do gigante preto.

 

– Acorda, sagrado!

 

A voz do velho, de pele colorida, ecoou dentro do ranchinho e Tiête levantou-se leve, suave, como um sabedor profundo das coisas.  Uma paz conhecida apenas pelos santos. Pegou seu pilão e começou a rufar, tirando dele milagres. O tempo reverberou novamente sobre as copas das árvores da floresta e sobre o povoado das pessoas da lama.

Depois de passado dias, vários dias, Tiête voltou ao vilarejo. Foi uma entrada diferente, silenciosa, tipo um ritual de adoração. Admiravam sua pele que reluzia algo incompreensível e muito sedutor. A atenção agora era toda dele. Tiête não decepcionou. Seus remédios curavam imediatamente após a ingestão. Seus unguentos cicatrizavam feridas e ossos quebrados numa velocidade espantosa. Quando necessário, Tiête sacava de seu canivete e perfurava carnes, retirando doenças daquela gente, que seus remédios e unguentos não conseguiam curar.  Seus serviços passaram a ser sempre requisitados, mas um breve sorriso nunca ganhou. Não que isso o incomodasse, não mais, estava longe disso.

A única coisa que o perturbava era a chegada da grande noite longa e chegou. Passou o dia amarrado por uma angústia e uma fúria incontrolável. Seus olhos pareciam fritar dentro do crânio, e seu nariz sangrava. Sua pele preta foi escurecendo para um tom abissal, se fundindo com as sombras, ficando invisível dentro delas. O pânico aterrador o fez tremer, e a dúvida atroz de ter sucesso no que lhe foi orientado, o fazia rodopiar em torno de si e quebrar suas unhas, com as unhas. Enquanto havia tempo, tinha que arrancar forças da luz que estava sendo ofuscada pela escuridão e reagir. Abraçou os bons pensamentos e como um corisco saiu arrebentando com seu peito galhos, cipós e o ar. Já dobrando sobre si de tanto cansaço, avistou um porco selvagem aninhado para dormir. De longe, para não assustar o animal, pronunciou a evocação que lhe foi ensinado.

 

– Criatura feita de inocênça, com o poder dado pra mim na primeira faísca que criô a grande casa de Tupã, eu, com todo respeito à sua simpricidade, agora uso o meu direito de nascença pra podê uma parte de mim entrá e misturá nas suas carne. Eu sô o raio e tudo que feis ocê ixistí. Sô o bafo assoprado no seu lombo que feis ocê respirá. A mão que te aprumô, que feiz ocê andá. O istralo no seu peito que feis seu coração purçà. Criança brotada de mim, a honra docê tê me servido vai iluminá seu caminho de vorta pra Tupã. Sua carniça vai servi de cumida pra terra e pros verme, fazeno a vida de novo. Fica feliz com eu ter te escuído e me agrada, obedeceno. Inantes de amanhecê, vorta e devorve o que é meu. Levanta e serve pra mim o seu corpo. Levanta fí piquenininho de Tupã e de mim. Abre pra escuridão agora e recebe ela com o coração chei de alegria. Abre pra a escuridão agora e recebe ela com o coração chei de alegria. Abre pra escuridão agora e recebe ela com o coração chei de alegria. Levanta e transforma num pote vazio, queu vô entrá.

 

O animal levantou-se, ficando imóvel. Tiête deitou-se em seu lugar e continuou a terrível evocação. Os pelos das costas do porco selvagem eriçaram. Ele babava e mordia o chão de tanta dor. Então o breu total se libertou do Tiête num solavanco, sacudindo seu corpo. Penetrou o bicho por todos os poros de sua pele, expulsando de vez sua energia natural transformando-o em uma fera destruidora. Disparou dilacerando tudo que estava em seu caminho. Tiête ficou ali, conseguindo movimentar apenas seus olhos e pensamentos. Seu corpo preto converteu-se para uma brancura transparente e muito brilhante. Totalmente indefeso pela falta da escuridão e preocupado com as consequências dela talvez não voltar, clamava em oração:

 

– Cê tem que vortá, cê tem que vortá!

 

Pouco antes do sol raiar, o porco selvagem já estava ao lado do corpo inerte do Tiête. A escuridão abandonou o animal, dissolvendo sua pele, voltando pra sua verdadeira casa. Impossível não voltar, ela também não sobreviveria sem sua outra metade luz, perderia o sentido de existir. Tiête se levantou e o porco caiu como cai uma carcaça. Extremamente cansado, pele acinzentada e olhos muito vermelhos, o preto gigante voltou para o seu ninho feito apenas com capim santo e forrado com um amontoado de tecidos caprichosamente limpos. Dormiu.

No dia seguinte, descansado da batalha travada, juntou seus remédios, unguentos e seguiu para o povoado. Chegando lá, vê as pessoas alvoraçadas comentando sobre a morte violenta de um de seus moradores e alguns animais. Que foram estraçalhados com tanta força que seus ossos partiram e seus crânios haviam sido devorados. Comentavam que era alguma coisa parecida com um porco enorme. Sem ser notado, voltou pra sua casa e se envergou de culpa, tremendo e suando em cascata por todo seu corpo e olhos.

Sem precisar pensar muito, resolveu ir embora do vilarejo. Juntou numa pequena trouxa seus objetos pessoais e encheu sua carroça com tudo que havia produzido em seu rancho. Antes de seguir viagem, passou pelo povoado doando remédios, alimentos e notificando sobre sua partida.

As pessoas da lama, carente de tudo que Tiête tinha de sobra, imploraram para que ficasse, que pagariam o dobro, o preço que fosse por suas mercadorias, que tivesse piedade deles. Na agonia de convencê-lo, o povo afoito, passava as mãos na pele do Tiête, riscando-o com suas unhas, tingindo de vermelho o preto. Apavorado ele gritou:

 

– Eu fico.

 

Todos acalmaram. Baixaram seus olhos, ombros e voltaram para suas casas aliviados.

Os anos passavam, e Tiête se aprimorava no controle de seus novos poderes, que a cada dia se tornavam maiores. Os anos passavam e as noites longas passando sempre neles. Os anos passavam com as noites longas libertando a escuridão absoluta, deixando Tiête branco, transparente, luminoso e um rastro de animais e pessoas mortas. Os anos passavam e, em cada um deles, o povo do barro olhava com desconfiança para Tiête, no amanhecer, depois da noite longa e da carnificina. Seus olhos vermelhos feito uma jaboticaba podre e pele áspera, alimentavam as suspeitas. Mas, Tiête continuava a arrastar sua carroça pelo barro, dia após dia, vendendo, sob perguntas e olhares desconfiados.

Os anos e a desconfiança fizeram a cidade do barro se unir para terem a certeza de uma já quase certeza diabólica. Esperaram pacientemente um ano, até que chegasse a noite mais longa, fria e escura. Tiête nunca desconfiou de nada, era tratado por eles naturalmente.

Diabólico era sim, o que as pessoas enlameadas haviam feito e o que planejavam fazer. Diabólico é sim, o desfecho dessa história. Para a vila de pessoas amargas, a tão esperada noite chegava. Para Tiête, a tão desesperada noite chegava. No crepúsculo daquele dia, o sol bordou sangue no céu num vermelho como nunca havia sido, tingindo de fogo as faces dos enlameados. De longe podia-se ouvir o tropel da horda infernal. Cercaram a casa do Tiête, empunhando tochas, martelos, foices, facas, facões, machados e porretes.

Lá dentro do rancho, Tiête se agitava freneticamente com todas as suas células e átomos vibrando feito uma caixa de marimbondo quando provocada, se abrindo, dando passagem total para escuridão. Ele sabia que não poderia ficar ali. Sabia que a desgraça estava sendo desenhada às voltas de sua humilde casa. Quanto mais se debatia, mais o povo lá fora o desafiava a sair. Ele quebrava tudo que estava à sua frente e queimava seu corpo com as brasas do fogão, na tentativa de retardar o domínio do breu abissal.

Apesar das provocações raivosas, Tiête se esforçava em dor, para continuar pensando amorosamente naquele povo. Povo que ignorava o poder das forças opostas da natureza quando em desequilíbrio. Ele tinha que sair dali para encontrar um corpo para as trevas. Em hipótese alguma poderia ser o seu. Sentiu a escuridão engolindo de vez a luz dentro dele. Ela lutava para não perder espaço. Inutilmente. Aquela era a noite do breu, da mãe do todo, só dela. E assim poderia ficar eternamente, a não ser que dessa batalha, não houvesse vencedor.

Tiête marcou o rumo da porta e a arrebentou, dando de cara com a multidão endiabrada. Seu corpo em ebulição desprendia grandes descargas elétricas, provocadas pelas duas forças prestes a se fundir. Fazendo o branco, nascido do preto, retornar ao início do Todo.

As pessoas do barro, confusas entre a coragem e o medo, não arredavam pé. Mantinham-se firmes mordendo seus dentes a ponto de quebrá-los e balançando seus corpos na direção do Tiête de forma ameaçadora. Grunhidos bestiais ecoavam estrondosamente pela floresta, sendo impossível saber de que lado vinha. Da agonia do Tiête ou da ira da população?

Assim ficaram. Até que, mesmo com seus olhos voltados para dentro de seu crânio, Tiête viu pedaços da sua pequenina Branca, desidratados com sal e maldade, pendurados no pescoço daquela legião de demônios. Eram usados como amuletos de proteção, posicionados como escudos. Isso fez algo extraordinário e único acontecer na noite apenas da escuridão profunda. O ódio tomando conta do Tiête, fez das trevas mais poderosas ainda. A luz reagiu explodindo numa claridade pulsante e intensa para fora do corpo do Tiête. Luz e trevas o envolveram num campo assombrante de vida e morte, de amor e ódio, de paz e guerra. Mas ainda era a noite do breu total. Seu reinado.

Uma esfera de luz enorme, formidável e brilhante envolvia o corpo do Tiête. Uma maior, de escuridão, envolvia a de luz. Mas a escuridão não bloqueava a luz. Difícil explicar. Tiête, no centro das esferas, uivava, rosnava feito um anjo do inferno. De repente ele parou. Parou mesmo, parou tudo, nem respirava. Quieto, muito quieto! Um silêncio surdo precedeu a um acontecimento que o povo do barro jamais havia visto e nunca mais veriam, nem poderiam contar. Com seus olhos revirados e uma paz comparável somente com o miolo de um furacão, ele estendeu suas mãos, como a um chamado. As pessoas foram sugadas violentamente em sua direção. Ao tocarem na parte escura da esfera, gritavam em agonia e desespero. Seus corpos eram ressequidos a ponto de sobrar apenas cinzas, enquanto suas almas eram tragadas para dentro da esfera de luz, que os acolhiam piedosa e sem julgamento.

Quando o último foi pulverizado, as esferas implodiram para dentro do corpo do Tiête. Ele estava completamente nu, apavorado, fora de si e desapareceu nas profundezas da floresta. Nunca se soube para onde foi. Acho que nem tem como saber. Talvez aos pés de um imenso Tamboril, local onde moram espíritos santos das matas. Dizem que nas noites mais longas, frias e escuras, ele pode ser visto flutuando dentro das esferas pulsantes. Ora luz, ora escuridão, sobre a floresta, como um arcanjo, que em uma de suas mãos empunha o fogo e na outra a brisa que refresca.

 

 

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