De: Paulo Vespúcio
Sejam bem vindos a mim! Se acomodem e ouçam a mais pura verdade que vou contar! Sobre não existir lugar mais apropriado para nascer, crescer, amadurecer e morrer, do que no colo da mãe, da mãe de todos. Amorosa e perversa, conduz sem nenhum esforço ao que é, ao que deve ser, sem sombra de dúvidas. Em todos aplicou o instinto, força invencível, que os fazem seres fieis à natureza, ao ciclo natural. O cotidiano, por bondade da grande mãe, para alegrar, faz poesia com todo esse movimento, bordando-o com forma de amor! Palavra engraçada para esses casos! Assim, entorpecidos por essa magia, seguem se vendo e se sentido seres livres dessa força incomensurável, diferentes de todos os outros que habitam o mundo natural. Essa história mostra o momento em que a criatura é convocada pela criadora a ocupar um novo lugar na sua existência. Novo, mas que sempre foi seu, por natureza. Sobre um dos grandes momentos na existência de Maria, uma menina de mais ou menos treze anos, que tem cheiro de relva fresca em seus cabelos e em seu corpo.
Feliz e radiante de pura vida, cercada pelas flores e o sol da primavera, Maria lava roupas em um riacho de águas caudalosas e transparentes, em meio às veredas. Hipnotizada por seus afazeres e pelo canto que canta para os peixes do riacho, Maria não percebe a aproximação de um velho preto, da cor do carvão e bem alto e bem magro, que colhe flores do campo. Descansando em seu braço, um enorme cesto de vime, lotado de flores, margaridas, bromélias, orquídeas e lírios do campo. Ele é terno e lento. Em sua outra mão leva a pequenina flor dente-de-leão e a sopra, fazendo-a se desfazer, para que a brisa leve suas minúsculas sementes coroadas de plumas, até Maria, para ter sua atenção.
Ao perceber a presença do velho, com seu corpo incendiando de susto, maria junta as roupas em sua bacia, levanta-se apressada para correr e corre. Em menos de três passos, Maria se espalha na relva embolada na bacia, nas roupas e em seu medo aterrador. De bruços no chão, afogando-se em relva e tecidos, reúne forças e olha para cima. Vê o preto, cor de carvão, com o sol que brilha logo atrás de sua cabeça e seu cesto carregado de flores. Do cesto ele retira uma flor, a mais linda delas e oferece a Maria.
Velho- Qué uma flor…?
Maria- Não senhor…, é que eu caí…! Ai…, minha mãe vai me riscá de corda! Vô tê que lavá de novo e vô chegá tarde!
Velho- Eu ajudo…!
Maria- Ah…,não precisa eu dô conta sozinha…!
Velho- Eu ajudo…!
O velho, da cor do carvão, põe seu cesto ao lado e ajuda a menina a juntar as roupas espalhadas. Os dois sentam-se para começarem a lavar as roupas. Os dois não se olham, não se falam, até que o preto velho quebra o silêncio que deve ser quebrado.
Velho- Muita roupa pra você lavar!
Maria- Não…, né não…! Sou pequena, mas sou forte! Eu gosto…!
Velho- É…, se gosta…, né? E do que mais cê gosta?
Maria- Senhor…?!
Velho- Além de lavar roupa?
Maria, sem titubear, deita-se nas bordas do riacho, quase enfiando seu nariz dentro dele. Arfando morno feito uma apaixonada, deixa escorrer de seus lábios, a mais pura verdade já dita por ela:
Maria- De olhar os anjinhos voado.
Do fundo da transparência do riacho, os peixes parecem entender sua fala e se amontoam sob seu rosto. A voz suave do preto das flores busca novamente a atenção de Maria.
Velho- Aí tem anjinhos?
Maria- Tem…! Um monte…! O senhor nunca viu?
Velho- Também…!
Maria- Também o que…?
Velho- Também…, dentro do riacho.
Maria- Onde mais…?
Velho- Debaixo da figueira.
Maria- O que?
Velho- Anjinhos…!
Maria- Num tem anjinhos debaixo da figueira!
Velho- Não tem dentro do riacho?
Maria- É diferente.
Velho- Não é não…! Ele encantou os seus olhos!
Debruçando sua enorme mão preta sobre os cabelos pretos de Maria, o imenso homem do cesto de flores, mergulha delicadamente as pontas de seus dedos entre os fios atados por uma fita vermelha que prende os cabelos da menina e diagnostica.
Velho- Muita água em você…!
Maria- Água…?
Velho- Se encantada com o fogo…, vê os anjinhos da figueira.
Maria- Anjinhos…
Velho- …da figueira.
Maria- Tenho que ir embora…,tchau…! Brigado de tê ajudado…
Vai saindo apressada, quando o velho chama novamente sua atenção.
Velho- Eu ensino.
Maria- O que…?
Velho- A ver…
Maria paralisa, o preto velho silencia para a resposta que demora e demora… Ainda em silêncio os dois deslizam sobre suas pernas, sentando-se onde estão, de frente um para o outro. O Velho e a menina se entreolham, a uns poucos metros um do outro. Fitam-se. Se sentindo autorizado pela idade e experiência, o velho senhor, com voz doce e compassada, abre espaço para ensinar. Abram espaço para aprender!
Velho- Numa noite muito escura, peque uma faca que nunca foi usada, um pedaço de
Bom-bril, uma caixa de fósforo e vá até onde tiver uma figueira. Chegando lá, no meio da escuridão, corte uma pontinha do seu cabelo com a faca que nunca foi usada. Procure uma raiz da figueira e faça com a ponta da faca do lado do corte, um talhinho de comprido na raiz. Com a ponta da faca do outro lado do corte, empurre o pedacinho de cabelo para dentro do talhinho que você abril na raiz. Vire de costas para a figueira e jogue a faca para traz sem olhar onde ela caiu. Pegue o fósforo e acenda o pedaço de bom-bril. Rodando o bom-bril por cima de sua cabeça, vá girando o corpo devagarzinho até ficar de frente para a figueira. As bolinhas de fogo que voarão do bom-bril vão encantar seus olhos e aí você vai poder ver também os anjinhos que vivem debaixo da figueira.
Maria levanta-se como que saindo de um transe e apressada, junta sua bacia, apoiando-a em sua cintura.
Maria- Eu tenho que ir embora, ta tarde. Eu tem que ir mesmo…eu vou.
Ela sai correndo sob o olhar terno do preto carvão, que baixinho diz para si:
Velho- Agora pode!
Que alto diz para ela, que vai ao longe:
Velho- Cuidado com suas coisas, não vá deixar cair de novo. Coisas podem se perder!
Que baixinho diz para si:
Velho- Devem se perder!
Maria correndo pra casa ou fugindo do velho, vê as flores que ele carregava, sendo levadas pela correnteza do riacho. Olha para trás e não mais o vê. Em casa, Maria chega para o jantar com sua família. Pai, mãe e dois irmãos. São felizes. Ela brinca, como todos à mesa, mas Maria parece distraída, um pouco distante. Tomada por uma força difícil dela entender e resistir, levanta-se da mesa e vai até um armário. Pega uma faca novinha em uma caixa, um pedaço de Bom-bril e fósforos. Vai para seu quarto, com a força de um chamado. A família feliz não entende nada, mas pela mesma força, não reagem.
Maria espalha todos os objetos do ritual em cima de sua cama e os observa com cara de sapeca e aventura. Decide-se, vai até uma caixa de madeira, tira um de seus vários vestidinhos vermelhos e o veste faceira. Pega a lamparina, abre a janela, olha a noite que está bem escura e sai rasgando a escuridão com a pequena chama que carrega.
Chegando na figueira, ansiosa e entusiasmada, procura uma raiz que esteja saliente no solo. Encontra. Tira a faca da caixa. Corta uma pontinha de seu cabelo. Abre uma pequenina fenda na raiz com a ponta da faca pelo lado do corte. Coloca o pedacinho de seu cabelo sobre a pequenina fenda e o empurra para dentro da raiz com o lado oposto da ponta da faca. Fica de costas e joga a faca para traz sem olhar onde caiu. Apaga a lamparina.
Ao som de barulhos de animais, insetos, vento, Maria reaparece na escuridão, iluminada apenas pelas fagulhas incandescentes que se despregam do Bom-bril. Ela começa a girar em torno do próprio eixo, sem deixar de girar o Bom-bril em círculos sobre sua cabeça. Ela fica de frente para a figueira e continua a girar o Bom-bril. As fagulhas agora iluminam também, as lágrimas extasiadas de Maria.
A figueira é revelada. Sob ela e nela habitam animais da floresta e domésticos. Se alimentam dela e nela, moram ali, dependem dela. Estes animais convivem e se relacionam com seres encantados, meio transparentes. Estes seres brincam com os animais, cavalgando, acariciando, pondo para dormir os diurnos e acordando os noturnos. Muita vida, dois mundos que se encontram em harmonia.
Ela vê um ser peludo, que tem os pés virados para trás, que com muito carinho fura com um espinho a jugular de um veado campeiro, recolhendo seu sangue em um pedaço de casca de árvore e bebendo em seguida. Seus olhos fogem do que vê, mas se encontram com os olhos de uma criatura que não pode ser definida nem como macho nem como fêmea. A criatura sorri e aponta para onde Maria olhava. Ela olha e percebe que o ser de pés para trás está mascando uma folha verde, para em seguida esfregá-la na ferida aberta, que cicatriza imediatamente. Ela volta o olhar para a criatura andrógena e ela está com a mão estendida convidando-a a se aproximar. Maria se perde nas palavras, mas não no desejo de ficar.
Maria- Não…! Sabe que qui é…? Me disculpa…! Sabe que qui é…? Lá na beira do riacho… o moço… tava lavano roupa… eu tava lavano roupa… e o moço…
Criatura- O porteiro.
Maria- Quem…? Não…! O moço falô…
Criatura- Vem…
Maria- …que era pra eu vim aqui… Am…?
Criatura- Conversar comigo.
Maria- Conversar…?
Criatura- Uma menina tão forte não está com medo…, está?
Maria- Não…, é que minha mãe e meu pai…, eu já vô,… tichau!
Criatura- Mãe?! Isso…! Mãe. Qual o nome da sua mãe, ela é bonita como você?
Maria- Mais…, muito mais…! Maria.
Criatura- Maria é o nome da sua mãe…! Lindo…!
Maria- Lindo…!
Criatura- Lindo…, nome de mãe! E o seu?
Maria- É Maria também…
A criatura murmura baixinho!
Criatura- Lindo!
Para logo em seguida voltar sua atenção para Maria.
Criatura- Ela é que fez esse vestido pra você?
Maria, sem perceber, já está sob a sombra noturna da figueira. Impossível não estar.
Ela, encantada, desfila com suas mãozinhas por todo seu vestido vermelho.
Maria- Lindo?
Criatura- Lindo!
Olhando e caminhando embaixo da figueira, Maria responde, responde, responde e responde…
Maria- Que lindo…!
Criatura- Um dia desses posso te dar um vestido.
Maria- Ah…, não precisa…já tenho esse. Bom, tenho que ir embora, ta tarde. Posso voltar?
Criatura- Claro…!
Maria- Ta…! Tichau…!
Criatura- …mas…, como você namora?
Maria- Am…?
Criatura- Como você namora se você só tem esse vestido bonito?
Maria- Namora? Eu não namoro…!
Criatura- Hum…?
Maria- …num é namorado! Quem te falou?
Criatura- Um dia desses posso te dar um vestido?
Maria- Ta bom… pode!
A criatura, mais que feliz, faz um sinal para um dos seres que estava atento à conversa. O Ser sai em disparada e todos da figueira se animam em frenesi.
Criatura- Será feito
Maria- Espera…!
Criatura- …será feito um sonho de namorada! Ele é bonito?
Maria- …não é namorado!
Criatura- …é bonito?!
Maria- É…!
Encabulada, apaixonada e com as bochechas vermelhas, se divertia com aquela conversa tão feminina!
A outros olhos, Maria seria vista caminhando sob a figueira, na penumbra da noite, conversando sozinha. Com apenas sons de grilos e sapos como companhia. O sol começava a azular o céu noturno, clareando o dia sob e sobre a figueira.
Maria- Tenho que ir…,agora é pra valer.
Criatura- Ah…, sim claro, sua mãe…
Maria- …já é tarde…
Criatura- Nunca é tarde!
Maria- Já vô indo…
Criatura- Volte quando quiser.
Maria- Voltarei!
Criatura- Você ama ele?
Maria- Ele quem…?
Criatura- Hum…?
Maria, enrubescida, olhos baixo e risinho de canto de boca, não conseguia conter a verdade.
Maria- Amo!
Criatura- Casaria com ele?
Maria- Casar…? Sô muito menina!
Criatura- Quase que não…
Maria- O que…? As vezes num te entendo!
Criatura- Quase que não é mais menina!
Maria- Você é engraçado…engraçada…!
Criatura- E…?
Maria- O que?
Criatura- Casaria?
Maria- Hunrrum…
Criatura- Feito uma arara?
Maria- Quê que tem a arara?
Criatura- Você é igualzinha à sua mãe.
Maria- Conhece minha mãe?
Criatura- Conheço você!
Maria- É… dizem…
Criatura- Quando casar…?
Maria- Quê que tem?
Criatura- Quer ter muitos filhos?
Maria- Muitos…muitos mesmo!
Criatura- Como a figueira…!
Maria- Como a figueira! Por que eu disse isso?! Eu vô embora…, já ta de dia…, por que eu não consigo ir embora? Tô ficando assustada…! Eu vô embora.
Criatura- Agora que sabe vir… volte sempre.
Maria- Volto sim. Tchau…!
Criatura- Tchau…! Menino ou menina?
Maria- Quê que tem?
Criatura- Quando for ter filhos, você quer que o primeiro seja menino ou menina?
Maria- Menina.
Criatura- Mães…! Quer primeiro nascer de novo!
Maria- Então ta bom…, tchau…!
Criatura- Tchau…! Posso ver seu umbigo?
Maria explodiu em gargalhadas!
Maria- Não…!
Criatura- Por que, seu umbigo é feio?
Maria- Não…!
Criatura- Então…, me mostra seu umbigo!
Maria- Ta bom…!
Se divertindo, ergueu seu vestido.
Maria- Ó…!
Um ponto de luz no umbigo da menina o fez desaparecer.
Maria- Quê que cê fez? Quê que é isso? Cê ta querendo me machucá!
Criatura- Não…!
O desespero ardeu na pele de maria. De cima a baixo.
Maria- Por quê que eu fui vir aqui…! Eu tem que ir embora. Eu vô embora.
Criatura- Mas volte logo… venha sempre…!
Maria- Tem alguma coisa acontecendo!
Criatura- Tem.
De entre as pernas de Maria menina escorreu um vermelho vivo encarnado, tingindo seu corpo para sempre. O desespero foi visível em suas lágrimas!
Maria- Eu preciso ir…
Criatura- Sim…, más volte logo!
Maria- Eu vô.
Maria sai correndo como quem corre do destino. Da planta de seus pés, saem milhares de pequeninas raízes que mergulham no solo e que a impede de ultrapassar os limites da sombra da figueira. Ela se desespera e agora seu choro é um choro de quem nunca chorou!
Maria- Num faz isso comigo não…! O que eu fiz…?
Criatura- Vai fazer.
Maria- Num faz isso…!
Criatura- Não fiz…!
Novamente só os lábios da criatura puderam ouvir o que por ela foi dito.
Criatura- Uma nova figueira…!
Maria- Eu quero ir pra casa… Meu pai, minha mãe, meus irmãos…
Os seres encantados da figueira, proferiram palavras que lembravam boas vindas e com alegria tremenda, vestem Maria de mulher.
Ela, completamente em desespero e em prantos, compreensível, vira-se, olhando na direção de sua casa. A menina, agora mulher, veste um vestido transparente, longo e encantado, que mostra toda a formosura de seu novo corpo e que se mistura ao solo. Em seu braço uma criança pequena, albina, nua e gordinha. Com a outra mão, a Menina mulher acaricia uma cadela enorme, de pelos escuros e com as tetas entornando leite.
À sua volta, sob e na figueira, todos os seres, naturais e encantados, fazem o que sempre fazem, sem nada alterar.
A figueira é feliz com seus filhos e é uma boa mãe, pois não possui umbigo. Está em todos, pois se alimentam dela e são saudáveis, pois descansam em seus braços. Nunca está sozinha, porque mesmo mortos, seus filhos retornarão a ela. Nunca irá, pois é o ponto de partida e de chegada.
Ao longe a figueira sempre poderá ser vista, aparentemente solitária, em meio aos campos verdes que a cercam. Esperando, esperando, esperando… Marias. Não tenham medo, Marias!