De: Paulo Vespúcio
Eu nasci um ser aí e amaldiçoado.
Não era uma maldição qualquer, pois quem a aplicou entendia muito bem de maldições e disso estava certo! Parecia ter sido feita de uma forma eficiente e tão brutal que me fazia roer as unhas. Roía, não como é típico dos que tem pressa! Roía raspando, rasgando, arrancando, como é típico dos malditos! A dor era tremenda. Sangue e carne exposta pareciam ser o único bálsamo para a culpa. Não que eu tivesse nascido com ela… ou sim. É que o gesto de levar os dedos à boca, como quem alimenta de si mesmo, me confunde com relação a datas. Talvez antes mesmo de ter nascido, ou antes, mesmo de ter sido gerado, mas isso não importa, ela estava comigo, fundida de forma tão perfeita e intensa, que não existíamos um sem o outro. Os avessos de uma santíssima trindade: maldição, culpa, eu.
Quem sabe estivesse aí a explicação daquele meu desarvoro em nascer logo?! O espaço em que eu estava havia ficado pequeno para um corpo e tantas coisas, mas isso também não posso afirmar, pois no princípio não parecia me causar nenhum tipo de incômodo. No princípio, eu ignorava, uma qualidade dos benditos, mas que não duraria muito.
Nasci, com os olhos arregalados, os pulmões ávidos por oxigênio e uma curiosidade ímpar, que disparava meu olhar para todos os lados em busca de informações. Informa ações… enforma ações… enformações… informações…
A felicidade dos que me viram nascer era geral, interrompida apenas pela estranheza que eu causava quando mostrava meu talento de, mesmo com meu rosto virado pra cima, conseguir passar minhas lágrimas de um olho para o outro, enquanto chorava de alegria por estar vivo em meio ao mundo.
-“menino estranho!” Comentário unânime, seguido de risos descontraídos para evitar retaliações ou descontentamentos, mas, sem dúvida, uma constatação de uma condição.
A forma… fôrma… forma… do meu nariz realmente não atendia aos padrões da beleza, mas me permitia fazer algo que era único. Por que não gostar…?!
Os dias passavam desde o meu nascimento e eu era amado por todos. Presentes, visitas diárias (várias), beliscõezinhos na bochecha, beijinhos na minha barriga, cheirinhos no meu saco e palavras de carinho:
-“nossa… que menino pintudo! Olha o tamanho do saco dele! Isso vai ter um saco de boi!!”
Confesso que foram dias de pura alegria e felicidade e tudo me parecia azul: o céu, as paredes, minha cama, minhas roupas…! Talvez aí o motivo desta minha fixação por azul. Adoro azul! Acho que eles, mesmo eu não dizendo, pois ainda não dominava essa arte de dizer, sabiam do meu gosto e todos os meus presentes, eram azuis.
Entre mamadeiras, afagos e banhos na bacia, fui crescendo e dominando meus primeiros passos rumo ao mundo, repleto de espaços para eu ocupar. Ele era enorme. Da porta da sala ao fundo do quintal, era infinito e cheio de possibilidades. No início, eu descobria e explorava aquele oceano de laranjeiras, abacateiros e outras delícias, timidamente, mas logo, eu era a pura virilidade, saltando e correndo em meio àquela imensidão, com a alegria que é comum aos filhotes. Tão lindo, tão cheio de luz, tão jovem! Impossível passar desapercebido!
Meu limitado universo infinito era delimitado por arames farpados e mais se assemelhava a galeria de um coliseu, onde os moradores vizinhos, meus profundos admiradores, se amontoavam para me ver no meu mais lindo esplendor pueril.
Arfando e radiante, às vezes eu parava para olhá-los e ver em seus olhos a alegria que eu estava proporcionando. Não raro, também via uma certa pré-ocupação em seus semblantes, como se vissem em mim uma grande maldição… mal de são… mal de são… maldição…, mas que eram prontamente acalmados no momento em que eu era submetido a um ritual, que estou convencido, com o intuito de arrancar de mim aquele defeito, que aos olhos deles, parecia ser gritante – um ritual onde minhas unhas seriam cortadas.
Na verdade, eu nunca entendi muito bem aquele procedimento, pois cuidava para que elas estivessem sempre muito bem aparadas, até o talo. Mesmo assim, estendia minhas pequeninas mãos e via as lâminas da tesoura avidamente procurarem algum resquício de unha que minha eterna angústia tivesse esquecido ali, na ponta dos meus dedos.
Sim, o desconforto deles me causava angústia!
O fracasso das lâminas em encontrar algo para extirpar, arrancava de mim um grito muito alto e agudo. Por querer ajudar, eu afastava a carne das pontas dos meus dedos, dos restos de unha…, mas todos os esforços eram em vão e outra técnica passava a ser usada:
Uma por uma, as pontas dos meus dedos eram colocadas entre as duas partes que formam o cabo da tesoura para, em seguida, usando as lâminas como alavancas – como é sabido, com alavancas pode-se mover o mundo, quem sabe também uma maldição –, apertar até passar de vermelho encarnado para roxo.
Meu grito ia de agudo para o grave e eu olhava profundamente nos olhos arregalados dos meus admiradores, tentando dizer a eles, mostrando minha cumplicidade, que estávamos ali, juntos, com um único e nobre propósito.
As crianças, levadas até as bordas farpadas da arena, enroscadas e em lágrimas nas pernas de seus pais, pareciam não ver nada de anormal em mim!
Eu também era uma criança.
Mesmo com o esforço conjunto, não seria assim, fácil, a remoção de tanta coisa ruim. Ao final, todos, com um ar de frustração, partiam e eu era deixado – acredito, para que todo aquele processo se fixasse em cada pedacinho de mim – sozinho, cansado e trêmulo. Acreditem… cansa, é muita doação e eu entregava toda a que eu tinha, no meu corpo e na minha alma. Era o mínimo que eu podia fazer em troca de tamanho empenho daqueles que me amavam tanto.
Com os joelhos bambos, caminhava dentro do meu limitado universo infinito coberto por folhas, flores e frutos, tentando me reorganizar, pois todo aquele movimento dolorido me causava isso. Talvez fosse essa a intenção e propósito. Ao me reorganizar, quem sabe, coisas desagradáveis cairiam de mim, de vez, para nunca mais voltar.
Escondido sob a sombra fresca das bananeiras – não que eu tivesse medo ou fosse algum sinal de fraqueza, não, pois todo animal ferido se esconde –, com os olhos cobertos por uma nata de lágrimas, olhava o mundo com todas as suas formas complexas de cores, texturas, cheiros, tamanhos… E tudo, tudo, era perfeito aos meus olhos molhados de criança. O bonito, o feio, o reto, o torto, o vivo, o morto, todos no mesmo lugar… Harmonicamente.
Por isso esforçava, me doando para o experimento de retirada daquela minha imperfeição. Estava convicto, fui convencido por uma lógica inquestionável: mesmo eu não tendo ainda a capacidade de perceber e entender aquela minha anomalia, era definitivamente improvável que todos os outros estivessem errados no diagnóstico.
O tempo, amigo fiel e inimigo implacável, decidiu que eu deveria ser exposto a uma ajudinha extra, para que os resultados fossem mais satisfatórios – O tempo não se satisfaz facilmente! O tempo não pode ser satisfeito facilmente! – Tão rápido quanto sua decisão, infringiu sobre mim um movimento de expansão do meu corpo e de tantas outras coisas, que quase explodi.
Breves momentos de relaxamento serviam apenas para dimensionar e potencializar o caos e assim eu era espremido por todos os lados, rumo aos espetos dos arames que me cercavam. Era a força de um Deus sobre a criação, não havia como escapar. Mesmo cravando meus calcanhares fundos na terra, apoiando firme as costas no meu limitado universo infinito e enfiando meus dentes nas coxas daquela divindade impiedosa, não foi o suficiente para me poupar de assistir em cores e assisto até hoje, como se fosse hoje, meu peito ser dilacerado por aquelas navalhas pontiagudas até que, sem saber se passei por elas ou elas passaram por mim, fui atravessado para o outro lado e lá estava eu:
Sapatinhos pretos caprichosamente engraxados e lustrados, meias pretas bem esticadas, até a altura dos joelhos, bermudinha azul marinho passada com quinas, camisa “Volta ao mundo” branca, com detalhe em “V” picotado em suas duas mangas curtas e bordado com linha azul no bolso do lado esquerdo do peito, na altura do coração. Pasta preta para os livros, com presilha frontal, lancheira azul com presilha frontal, recheada de guloseimas e uma garrafa com Kisuco, bem docinho, que vez ou outra era substituído por leite com café, bem docinho. Ah…, às vezes tinha banana, às vezes tinha laranja. Gosto bastante dessas duas frutas!
Sem nenhuma vergonha ou receio, confesso que aquela birra e resistência, podiam ser apenas um boicote à minha própria felicidade. Que a imolação, era uma amolação e uma amolação entre mim e as novas possibilidades.
Praticamente certo disso e bem mais seguro de todo o amor que me cercava, saia por aí experimentando coisas, entre tantas coisas! De fato, me entendi como um bife de carne ruim, que deve ser açoitado vigorosamente para amaciar, antes de ser preparado e consumido. Do contrário, deixaria de ser bife para virar uma amolação. Não era o meu intuito, queria valer a pena pelo sacrifício doado por todos à minha formação. Forma… ação… formação.
Entre idas e vindas, nesse novo lugar, encontrei o que poderia ser a felicidade: estava ocupado em descobrir. Só não afirmava com absoluta certeza, pois ainda tinha dúvidas se Ela estava no “descobrir” ou no “ocupado”. Ocupado do tipo, quando todos os seus sentidos estão focados em uma única coisa por vez, o tempo necessário, não importando o quanto, desde o primeiro contato até o descobrir.
Hipnotizado pela beleza das diferenças, que eu minuciosamente analisava e absorvia de forma sedenta, passava dias e até meses voltando ao mesmo lugar, à mesma coisa, para que nada escapasse da minha fome de riqueza de detalhes.
Quantos detalhes!
Essa possessão, aos meus olhos, me tornou invisível para o mundo e a partir daí, eu que o observava no seu mais lindo esplendor pueril. Tão lindo, tão cheio de luz, tão jovem! Impossível passar desapercebido! Sim, essas diferenças eram o que me embriagava e que me fazia deitar ao pé de cada coisa nova, indistintamente, num gesto de respeito e adoração.
Quando me deito, me deito na altura dos meus pés.
Após uma tempestade, voltando de um lugar e indo para outro, fui arrastado por minha curiosidade ímpar, até as margens de uma poça d’água.
Sempre me deito aos pés de cada coisa nova. Impossível não deitar!
Deitei-me e fui imediatamente encantado. Meus olhos quase caíram dentro dela, ao perceber que estava ali, diante de mim, uma janela aberta, escancarada para o céu.
– Esse lugar certamente eu não conheço!
Pensei alto para os meus ouvidos.
– Eu vou pular!
Pensei alto para o meu corpo e pulei.
Concentrei toda a energia do meu corpo nas plantas dos meus pés, podia senti-la se acumulando como o redemoinho de um furacão. Todas as articulações do meu corpo entenderam o acontecimento e colaboraram de imediato, permitindo serem tencionadas por meus músculos e tendões, até eu estar pronto. Com a ajuda dos meus braços, que balançaram como pêndulos ao longo do meu corpo, lancei-me num salto vertical/ascendente e profundo, até a imensidão do céu, abaixo de mim.
Todos os meus pelos eriçaram, meus poros se abriram e minha pele esticou até não ter mais jeito. Minhas narinas se expandiram e dentro dela senti os vasos sanguíneos dilatarem a ponto de eu respirar por eles. Da minha boca, um berro oco, calado por um engasgo, de emoção ou pavor e que aos poucos foi abrandando, na medida em que um cheiro muito forte foi tomando conta de mim.
O cheiro da puberdade.
Como era lindo meu novo corpo! Alto, bem ossudo, um pequeno caroço num pescoço comprido, abaixo do queixo, que fazia minha voz oscilar do agudo para o grave, sem ser dor! Alguns poucos pelos sobre o lábio superior, nas axilas, logo abaixo do umbigo e muita, muita testosterona, que fazia tudo aquilo feder muito! Claro, não posso deixar de citar o chulé e o sebo na cabeça do pinto. Passos largos e lentos por conta da carência de musculatura, desproporcional ao tamanho do corpo, cabeça baixa e ombros recolhidos, para parecer um pouco menor diante dos menores. Olhar languido e terno, como os anjos de “da Vinci”. A própria perfeição! Qualquer possível defeito não era mais um problema e eu me sentia inteiro!
Da altura que agora eu estava tudo parecia menor. Natural que a frustração viesse e veio, caridosamente, em doses homeopáticas – forma inteligente que a natureza desenvolveu para nos fazer adaptar a novas condições –, mas não demorou a eu entender que a mudança aconteceu na verdade em mim, e rapidamente desenvolvi gosto por coisas pequenas.
Sem terem mudado de tamanho ou forma, as coisas eram mais frágeis e, por isso, merecedoras de muito maior cuidado!
Por minhas mãos terem se tornado bem maiores e pesadas, me preocupava ao afastar ou aproximar o que estava à minha volta e assim o fazia, com muita educação, pois entendi que elas não eram minhas e muito menos de alguém, apenas, delas mesmas.
Sem sombra de dúvida, é imprescindível que os movimentos sejam leves onde mora a delicadeza, pois tudo, em proporção ao maior, é pequeno. O maior é menor que o maior, que é menor que o maior, que é menor que o maior, que é menor que o maior, infinitamente! Este pensamento me fazia ficar quietinho e respeitoso na minha insignificância.
A vida seguia como devia ser e eu me sentia milimetricamente encaixado e justo na grande engrenagem, da grande máquina, onde eu havia sido colocado. Eu era apenas mais uma peça e sabia disso, mas uma peça com importância fundamental, pois era única, como todas as outras.
Eu gostava dela! Era feita de coisas tão belas e tão diferentes! É verdade que vinha dessa grande máquina um ruído que tinha o poder de me incomodar, mas não o suficiente para me enlouquecer. Na verdade, eu nem prestava muita atenção, mais me ocupava com outras coisas e não me preocupava com a origem ou qualidade do ruído, até que: não eram ruídos, eram gritos – palavras recheadas de sentimentos que eu não conhecia, mas que me fizeram sentir medo, angústia, desespero.
Em meio a tantas, uma daquelas palavras gritadas havia tirado um tampão dos meus ouvidos, ao pronunciar de forma horrorosa a minha tão estimada diferença! PALHAÇO!
Estupefato e com meus ouvidos completamente desobstruídos, ouvia vozes em coro dar nomes terríveis a todas as outras diferenças, que estão em todos. Gritos trocados, insultos trocados, não escapava um.
Senti pela primeira vez, a vergonha.
Fugi para dentro de mim de forma irrevogável. A máquina permitia isso, por clemência ou conveniência. Não me dei tempo para entender, me tornei um especialista em me esconder. Mesmo tendo escapado para um lugar onde julgava conhecer bem e me sentia protegido, não era o suficiente para deixar de ouvir as vozes, por onde quer que eu fosse.
A fuga me instalou em um lugar de dor e gemidos.
Desesperado e sozinho me perdi do paraíso e isso estava visível nos meus novos olhos. Passei a sentir vergonha de mim e ódio do diferente. Ele havia roubado a minha liberdade!
Num dia quente, desses que o sol faz o ar estremecer, caminhava por aí sem ter rumo – já não procurava mais saídas – quando, por obra da discórdia, em sua forma mais vil e de tudo que dela advém, me deparei com o espelho de mim mesmo, refletido em carne e osso. Se alguma coisa nos diferenciava – e isso é praticamente óbvio que sim – naquele momento não pude perceber. Era eu, parecia demais! Então me vi monstro, daqueles terríveis e destruidores das coisas boas, um monstro da partição, aquele que veio para debelar, para causar desordem, tirar da ordem, como se isso fosse possível, mas naquele momento era sim. Senti um pavor de mim mesmo, um sentimento de asco e de morte incontrolável.
Me abaixei, com o peso e a força de um gigante furioso e arranquei um pedaço duro do chão, uma rocha, que jamais se partiria. O ódio a arrancou. Me ergui decidido e lentamente, levantando tudo aquilo que estava sobre minhas costas e meus ombros. Meu reflexo percebeu minha força e por alguns segundos congelou. Certo do que viria a seguir, me deu as costas – nunca façam isso para um animal enfurecido – e caminhou lento, tentando escapar desapercebido, cheio de pavor. Senti o cheiro do medo, eu já o conhecia bem. Então, com a força do meu ódio e da vergonha de mim mesmo, arremessei um pedaço do mundo, o mais duro de todos, na direção do meu reflexo encarnado. Ele se ajoelhou quebrado, atingido no meio das costas. – Era só um palhacinho, era só um palhacinho…- Mesmo em cacos, ele chorava feito uma criança ferida e desprotegida. Ai, ai, ai, ai…! Não chorava alto, só o suficiente para me fazer acordar do que eu havia feito, só o suficiente para me estilhaçar de remorso e dó, de mim. Dei de costas para mim novamente e fugi.
Perambulei incessantemente por anos. Mesmo sendo um caminhar, estar perdido de si mesmo é um grande peso que se carrega. Caminhar com tamanho peso me transformou em um atleta de fuga. Meu corpo enrijeceu e criou volume de puro músculo. A outros olhos eu seria o que se chama de gostoso, muito gostoso, mas esses olhos não viam o que somente eu via. Gostoso? Sim… e vazio, um nada sem precedentes!
A escuridão dos meus dias era páreo para a escuridão das minhas noites, onde passei a esconder o que eu era. Qualquer claridade que ousasse iluminar meu caminho era rechaçada com violência, mesmo que do sol, da lua ou das estrelas. Não queria me mostrar, não iria me mostrar.
A defensiva e o ataque passaram a ser minhas únicas estratégias de vida, mas dentro de mim eu chorava minha morte. Dentro de mim era terrível! Esperava que o tempo esquecesse que era meu pior inimigo e se lembrasse apenas que era meu amigo mais fiel e me curasse, mas ele parecia não me ouvir. Talvez, ocupado com coisas ou pessoas mais importantes.
Então minhas mãos se entrelaçaram com as da solidão, como um nó ou uma aliança, que não se desfaz, que não se quebra. Sendo minha única companhia. Mesmo sendo uma péssima companhia, eu era o meu único ponto de afago.
Assim, solitário, diante do meu corpo nu, branco, muito branco, feito uma nuvem e carente de sol, deitava todo aquele peso em lençóis ou em qualquer lugar e o abraçava admirando cada parte, em pequenas partes, de pequeninas partes. “Se não fosse tão oco seria belo, divino”, pensava, enquanto escorregava vigorosamente minhas mãos por ele. Tinha uma textura e cheiro de coisa nova, que me fazia sentir vontade de beijar-me e beijava, deslizando meus lábios um sobre o outro, enquanto minha língua os umedecia de saliva grossa, para lá e para cá, calmamente, de um canto ao outro. Era tão bom e reconfortante que eu os mordia delicadamente e eu estava tão grande que levaria dia e noite para minhas mãos percorrerem todo o meu corpo, todos os meus músculos, toda a minha brancura, mas eu não tinha esse tempo, poderia ser flagrado me dando afeto. Então, eu escolhia as melhores partes e me concentrava nelas, as partes mais quentes de mim, entre as minhas coxas, aquecidas por veias grossas e abundantes, como o interior das coxas de um cavalo. Subia e descia por elas através das pontas dos meus dedos doloridos, sentindo cada nuance de cheiro, observando cada detalhe, apalpando, adorando, admirando… até me satisfazer em mim, até cansar de mim, até não me bastar mais!
Estava prestes a conhecer o que o outro pode fazer na vida de um perdido!
Solidão até não caber mais se mostrou ser um excelente remédio para o mal de andar olhando para o chão, feito cachorro raivoso. Solidão até não caber mais empurra o queixo e as pálpebras para cima. Solidão até não caber mais não dá é um lugar sem saída. Solidão até não caber mais força a boca abrir e pronunciar um oi.
– Oi!
Não só um, mas vários retornaram, feito um eco:
– Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi…!
Como um encontro de periquitos, araras, pardais, curicacas e tudo mais, no entardecer, se preparando para dormir.
Foi lindo, esplendoroso, retumbante e lá estava eu, mais uma vez cercado pelas diferenças e um holofote foi aceso sobre mim, me fazendo brilhar e brilhei, muito, muito mesmo, a ponto de me tornar visível novamente para aqueles que me amavam tanto.
Outro acontecimento extraordinário iniciava-se em minha vida!
Emocionados e desta vez totalmente decididos a me ajudar naquela batalha que me moía, desde não sei quando, pegaram-me nos braços como quem carrega um campeão ou um sobrevivente e me levaram. Estavam certos que seriam vitoriosos, custasse o quanto fosse. Usariam se necessário fórceps, mas aquilo não ficaria mais em mim!
Entreguei-me novamente de corpo e alma e começamos os procedimentos: sulpirida-serenal, aripiprazol, haloperidol, clonazepam, oxazepam, lorazepam, escitalopram, alprazolam, prometazina, venlafaxina, gabapentina, imipramina, quetiapina, paroxetina, lamotrigina, lítio, metadona, buspirona, primidona, risperidona, trazodona, ziprasidona, nefazodona… DEUS.
Nada estava dando certo. Nada estava mudando. Eu suava, suava muito, até doer! A dor era tanta que eu pensava que estava funcionando e que todo aquele mal, toda aquela coisa ruim estava saindo do meu corpo em forma de água ou plasma, já não me lembro muito bem, me perdoem, faz um bom tempo, mas me lembro bem da dor e eu não conseguia mais suportá-la! Já se passavam anos e nada acontecia de diferente em mim, podia sentir, nada, nem um pouquinho! Estava cravado fundo na minha pele, em todas as partes de mim, no meu DNA e tudo aquilo me fez entender isso. Então, fui obrigado a tomar uma decisão, não só por mim, mas também por eles que me amavam tanto. Não queria fazê-los sofrer mais com isso! Me envergonho de dizer aqui diante de vocês: menti. Menti tão bem, que quando olharam fundo nos meus olhos viram que eu não era mais o mesmo. Viram que eu estava arrumado, pronto para ocupar meu lugar ao lado deles. Até eu acreditei em mim e tudo pareceu ficar bem! Pela primeira vez na minha vida, parecia ter entendido o que é ficar bem: que ficar bem é quando todos que te amam estão bem! Claro que este entendimento ainda me causava certo desconforto, mas valia o preço a pagar. Minha presença passou a ser uma presença suave e todos sorriam e falavam de todos os assuntos ao meu lado, sem receios. Mesmo que isso também me causasse desconforto, valia o preço a pagar.
Honrar minhas origens, dar valor a quem me ama acima de todas as outras coisas, não decepcioná-los, estar sempre à altura de suas expectativas de acordo com o montante investido na minha criação… cria ação… criação, eram lições diárias desde muito cedo.
Mesmo estando pronto e arrumado, a ponto de ser considerado mestre no assunto e sair por aí dando testemunho sobre minha transformação… transforma ação… transformação, já estava ficando impossível negar. Mentir para mim ou para o resto, não estava me dando a paz que eu buscava desesperadamente e eu continuava a me esgueirar entre os meus, tão diferentes, dando e recebendo prazer e pavor em relações sado masoquistas. Quantas feridas em nós, fundas e infeccionando, até que: entre gritos, rangeres de dentes, apiedei-me de mim. Me apaixonei! Não importa se por mim ou por alguns deles, importa é que conheci o amor, ali, em meio ao lamaçal. O lamaçal passou a não ser mais um problema.
Então, tive que tomar a atitude mais radical de toda a minha vida! Daquelas que você certamente será açoitado e perfurado durante horas, até ser crucificado, morto.
Desobedeci.
Foi um momento tão impressionante e intenso, que um fio de luz prateado surgiu no topo do meu crânio e cada vez que eu repetia o ato de desobedecer, de martírio e morte, mais um fio de luz se juntava àquele e uma claridade sem precedentes passou a iluminar meu caminho!
Ressuscitei…
… desfilando serenamente, uma coroa branca-prateada.
Olho os meus olhos e os reconheço como sendo os meus antigos olhos, novos, novinhos, meus olhos de criança. Olhei novamente tudo…!
Da altura que agora estou, mesmo que um pouco curvado por conta do desgaste do meu corpo, tudo é muito, mas muito menor: anseios, sacrifícios, martírios, desilusões, ambições, meus monstros, que mesmo bastante curvados por conta do desgaste de seus corpos, todos também foram crianças um dia, todos foram aprisionados em algum momento, perdendo-se nas profundezas de seus jardins. Há de se entender!
O Tempo, meu amigo mais fiel, me fez olhar novamente para toda a criação em suas infinitas variações, com olhos de criança, nem certo, nem errado, nem bonito, nem feio, nem reto, nem torto, nem vivo, nem morto, como simplesmente são e assim me fez sentir detentor da fórmula mágica para curar o mundo de todas as suas mazelas. E cura, é absolutamente certa esta afirmação. Cheguei a este fato trilhando um caminho que ninguém ousaria por vontade própria. Digo isso não envaidecido, simplesmente fui colocado nele. Hoje entendo que este meu caminho, sempre foi um caminho abençoado, por este bendito, dito, mesmo que vez ou outra, maldito, amor! Amor que nos protege e nos afasta da bestialidade.
Sim, palhaço…!