MARIINHA MANCA


MARIINHA MANCA

26 março 2025

MARIINHA MANCA


O amor não nasce, ele está e não escolhe lugar. Mesmo que algum lugar não o queira, ele estará travestido de infinitas formas, para ser irresistível.  Não é um convidado.   Às vezes entra suavemente como o néctar no peito do beija-flor, às vezes como uma clave no crânio dos que trazem a dor. Um poeta amoral, capaz de desenhar linhas de variadas formas, cheiro e gosto, pra que nada consiga escapar da sua beleza.  Não importa se o cenário de sua manifestação e representação é feio ou bonito, pois todos serão bonitos, bordados com fios de ouro e pedaços da lua, para os apaixonados. Somente eles conseguirão ver e passear juntos dentro desse jarro de absinto.  Mas, uma vez instalado, não queiram tirá-lo de lá. Ele é vaidoso e não gosta de ser magoado, sob pena de ele chamar a tragédia, sua irmã inseparável.  Essa é uma história de amor de passarinhos. Amor feito na medida exata para pequeninos corações puros e alheios ao que não pode.  

Mariinha nasceu menina vestida de menino, costume comum em sua época para famílias desprovidas de filhos homens. Ela nunca reclamou, pois não via diferença entre as vestimentas. Até que gostava pois combinava mais com as formas, ainda sem formas, de seu corpo de criança. Não embolava em suas pernas quando corria e saltava pelos campos e vales, como fazia as lindas saias de renda de Julica.  Julica se atrapalhava em meio a tantos tecidos e bordados, a ponto de, quase sempre, se espalhar entre gramas e cascalhos quando corriam juntas. Sempre corriam. Sempre Julica recebia uma mão carinhosa e forte para se erguer. Eram as saias e bordados que a faziam cair ou uma mão querida, para ela sempre estendida?   Juntas, faziam do mundo um lugar sem fronteiras, horizontes largos, de um colorido doce que não ardia em seus olhos, permitindo que vissem as coisas como elas são, com um olhar de ternura concedido apenas aos anjos.  Em seus mundos, lágrimas não existiam. Suas rubras faces só eram lavadas apenas pelas leves correntes dos riachos ou beijinhos, vez ou outra por elas dados. 

Cantavam, sempre cantavam, cantavam em coro com os canarinhos, canções que falavam apenas de amor e imensa alegria.  Brinquedos, só os da pura imaginação. Não eram prisioneiras das brincadeiras, então brincavam de tudo que crianças querem brincar, sem precisar esconder o desejo de brincar de tudo, de casinha a caminhãozinho, de boneca a bola, de médico a paciente, de marido a mulher. A mais pura diversão, espalhada aos quatro ventos com som de gargalhadas. Toda natureza era cumplice, assistindo a cada momento, satisfeita e sem enrubescer suas faces.                                                                                                             

Não precisavam de mais nada, só daquilo que já tinham, protegido pela solidão de um mundo criado por elas, perfeito, desenhado com traços livres, sem cerco, quinas ou cantos. Aberto, para todo o coração pulsar grande, sem medo de se ferir partindo ao meio.                                                                                                                                           

Para elas o tempo passava sem ter tempo para passar, para passarem mais tempo juntas se deliciando com o tempo que não passa!                                                          

Dizer que se bastavam era justo. O que faltava estava ao alcance. Para comer e para beber, era só estenderem suas mãos e lábios e as árvores e riachos lhes entregavam de bom grado.  As mamoneiras, gentilmente emprestavam suas sombras e folhas para a construção do ninho do sono e as meninas deitavam uma ao lado da outra e dormiam entrelaçando suas mãos para nunca mais soltarem. Não havia calor ou frio que pudesse desatar aquele nó do mais puro amor, criado e embalado pela inocência infantil. Uma magia só percebida pela pureza de um olhar. Uma perversão, aos olhos do pervertido.  Como uma cunha, um braço adulto e forte fura os galhos trançados e frágeis do arbusto, invadindo sem respeito ou piedade um momento divino.  Arrancadas de sua casa de mamonas a soco, pontapés e urros indignados, as pequeninas fadas foram arrastadas pelos cabelos e braços de volta para a cidade, que tinha cheiro forte de calvário. Seus corpinhos deslizavam em brasa sobre a grama alta que outrora tapete macio e agora navalha. A leveza de seus corpinhos permitia aos agressores, facilmente esfregarem as doces plumas de encontro ao solo, largando por onde passavam, pedaços de dor.  Desesperadas, trocavam olhares encharcados por entre as pernas gigantes de seus algozes, que gritavam coisas que crianças não devem ouvir.  Os gigantes nem ao menos transpiravam pelo esforço de arrastar aos trancos as pequeninas, mas desaguavam em puro ódio, exalando de seus corpos o fedor dos truculentos.  Os bordados, fitas e rendas das roupas de Julica foram sendo esticados, em pedaços, ao longo do caminho e Mariinha, anestesiada por ver sua flor sendo maltratada e não podendo fazer nada, juntava em suas mãozinhas os pedaços de enfeites que conseguia alcançar:                                                                                                                                            

– Peguei Julica, peguei…                                                                                                            

Mas os passos dos gigantes tremiam a terra, num volume colossal, impedindo Julica de ouvir as palavras de conforto.                                                                                          

Para elas, a cidade parecia ser bem mais perto. Olhavam e ainda parecia longe, muito longe. Mesmo sabendo dos gigantes que moravam lá, queriam chegar, pois o caminho doía demais. Mas, mais que a dor da dor, era a dor de não saber o motivo pra tanta dor, vinda de onde só vinha amor.                                                                                      

Após horas de minutos ou minutos de horas, chegaram na cidade, empunhadas feito uma caça abatida. Os gigantes estavam todos ali, num silêncio sepulcral e pensamentos mordaz fervilhantes. Todos se afastaram para que elas pudessem ser atravessadas por um corredor de olhares maldosos, prontos para chicotear e chicotearam.  Despiram suas costinhas e as colocaram abraçadas dentro daquela muralha imensa de corpos. Enquanto lanhadas, que pareciam fogo, riscavam seus corpos, era comum ouvir gritinhos abafados:                                                                            

– Não papai… não mamãe…  Mas também poderia ser apenas o som das varas verdes cortando o ar. Suas lágrimas derramaram feito uma cola e quanto mais derramavam, mais pregava e arrochava seus corpinhos um no outro, como um só, numa fusão assustadora para os gigantes. Desesperados com o acontecimento, mãos surgiram de todas as partes da muralha, enormes e avançaram sem respeito algum, com toda força da ignorância feroz, enfiando molhadas e babentas entre os quadris e lábios das meninas. Puxaram forte, com a força de titãs que eram. Quanto mais forte puxavam, mais elas se enroscavam por todos os seus poros. Foram necessários dias e noites de muito esforço para conseguirem desatrelar aquele abraço de amor!  No exato momento da separação elas gritaram tão alto que alguns deles caíram desacordados. Os que se mantiveram em pé, mal tinham força para segurar a força do amor partido. Elas se debatiam como duas feras em transe. Seus olhares mesmo a certa distância, como duas flexas afiadas, penetravam uma na outra tão fundo que os gigantes se apavoraram. Com pavor, puxaram mais forte e um estalo, como vindo do céu, arrebentou o cabo de guerra e tudo silenciou.  Lágrimas em silêncio, a mais doída de todas.                                                                        

Em silêncio foram levadas uma da outra.  Divididas, uma pra cada lado, penduradas pela cintura, quase mortas, sob axilas de gigantes.   Eles caminhavam, arrastando-se sobre suas gigantescas pernas extremamente cansadas pela batalha, miravam talvez o fim do mundo para levá-las, mesmo que esse lugar fosse as bordas opostas da pequena cidade, onde portas seriam lacradas de tal forma que a fuga não seria possível, mesmo para o mais hábil dos quarenta ladrões.  Minutos formaram horas, horas formaram dias, dias formaram semanas, que formaram meses emudecidos sem o canto dos canários. Toda a natureza se aquietou, com os ouvidos encostados no vento, à espera de ao menos um piado dos passarinhos prisioneiros.  A espera parecia ser infinita, até mesmo para quem é feita de infinito, de infinitas formas.  Depois de tanto esperar, um som fino e muito baixo se espalhou, levando um sorriso para aquela que tanto esperou. Mas veio fraco, tremido, quase acabando e tudo ao redor do mundo sentiu. Sem saber o que fazer, a natureza chorou junto com as meninas que choravam. Era uma coisa que parecia gemidos!  Tão baixo e tão desconcertante que furava paredes, quebrava esquinas e tonteava os tontos. Entrava em todo lugar causando desordem na ordem desordenada daquele povo gigante sem ordem. Eles corriam a passos bem largos de um lado para outro dentro da cidade, sem nunca parar, com suas suadas e babentas mãos tapando os ouvidos e gritando não. Mal sabiam que de tantos “nãos” que sempre pronunciaram, este novinho em folha, não seria ouvido e o desconforto passaria a ser aterrador! De um lado a dor da separação e do outro, a da incompreensão.  Enfraquecidas pela ausência de suas brincadeiras de criança nos campos, não comiam, não bebiam, não dormiam…  Enroladas sobre suas pernas, com as cabeças enfiadas no chão, no canto de seus cativeiros, elas morriam de tristeza, bem devagar, chamando baixinho uma pela outra:  – Socorro!                                                                                                                                       

Os gigantes, totalmente esmorecidos e ainda, inutilmente, tapando os ouvidos, cambaleavam, batiam seus corpos pesados nos postes, muros e paredes das casas, tentando escapar do clamor inocente de duas crianças que amam.                                 

De repente tudo parou! Os gigantes olharam pra cima e para todos os lados. De alívio respiraram fundo. Julica ergueu seu rostinho para o canto da parede e suspirou queimando seus pulmões. As brasas queimaram tão forte dentro de seu peito que ela gritou desarvorada antes de chorar urrando, sem nenhuma lágrima. Mariinha, ainda emborcada na mesma posição, se encontrava em um silêncio sepulcral.  Os gigantes entraram onde ela estava, sofrendo, sem entender, sem acreditar no que viam e o porquê da morte ter passado por ali, pois tudo que fizeram foi em nome do amor que tinham por ela. Furiosos, condenaram Julica como sendo a única culpada pela tragedia que ceifou sem piedade a vida de Mariinha. Então determinaram que Julica não poderia, em hipótese alguma, se aproximar de sua pequenina flor, nem mesmo depois dela ser abraçada, para sempre, pela terra que a fez nascer.  Mariinha, depois de lavada, penteada e vestida com um lindo vestido rosa florido, cheio de fitas e bordados, foi colocada em cima de uma cama grande, com lençol e travesseiro brancos, na posição dos anjos do teto da igreja. Os gigantes rezavam e choravam copiosamente, entrando aos pares no quarto para se despedirem daquela criança, agora, para eles, santa.                                                                                           Julica, quase sem vida, percebe que seus carcereiros não estão por perto, afastados pelo evento funesto.  Então ergue-se com força, como se ainda tivesse força e corre arrombando portas e o que viesse à frente. Seu atropelo fez a cidade olhar para ela. Incrédulos, com seus olhos esbugalhados, coração na boca, pernas e braços completamente abertos, o povo gigante cercava ruas inteiras tentando impedir sua passagem. Mas, pequenina que era e tomada pela energia de um beija-flor, vinda sabe-se lá de onde, talvez do mel de uma flor, escorregava passando ligeira e reta na direção de Mariinha. Tentavam, mas sabiam que não conseguiriam detê-la. Claro que sabiam, só não sabiam que sabiam.  O último obstáculo seria o mais difícil. Uma fortaleza repleta de gigantes que ela teria que vencer. Escorregadia, encharcada de suor, ela puxa pra dentro de seu corpo todo ar que consegue e dispara num voo rasante, escorregando molhada por entre tudo que tentava separa-la de Mariinha. Em um último esforço, entra no quarto onde está Mariinha Santa e sabendo que não a deixariam ficar, se enrosca nas madeiras da cama, olhando fundo nos olhos fechados e na alma da amiguinha. Estava certa que a vida ainda se escondia ali.                                                                                                       

Tentaram, tentaram muito e com força, arrancar Julica das madeiras da cama. Ela não produzia som algum e não tirava os olhos dos olhos fechados de sua flor. Puxaram pra arrebentar e arrebentou, mas Julica continuava no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, tomada de esperança.                                                                                                          

– Acorda Mariinha, acorda… abra os olhos Mariinha, abra os olhos!                                           

Um frio percorreu os corpos dos gigantes que estavam ali e de todos que estavam pela cidade, petrificando seus corpos e feições. A voz de Julica reverberou suavemente nas paredes do quarto até encontrar os olhos de Mariinha, que se abriram.  Mariinha se ergue, Julica se deita.                                                                                       

Todos assistiram impotentes, sem ar. Mariinha pousa sua pequenina mão sobre o rosto de Julica e chora tão alto e com tanta dor, que todos os gigantes, sem conseguirem controlar, choram juntos. O desespero foi de tal forma que Mariinha demorou  perceber que uma parte de sua alma e de seu corpo também morreram, paralisando.  Julica é entregue para a terra que a criou, no mesmo lugar que estava destinado a Mariinha, plantada como uma semente e claro que iria renascer, para que ninguém pudesse dessa história esquecer.                                                                                           

Sim, a vida voltou para acordar Mariinha, mas não poderia ser uma vida totalmente inteira, claro que não, pois sua outra metade estava a pouco deitada, apagada e sem luz ao seu lado, fazendo-a aleijada de uma de suas pernas. Mas para ela não faria falta, pois não tinha mais Julica para correrem juntas por aí com suas mãozinhas abraçadas. Mariinha, dilacerada, sem parte de sua alma e de seu corpo voltou a viver, mas, como Mariinha a manca.  Mariinha Manca… de tremenda dor.

 

Texto registrado. Para qualquer tipo de uso somente com a autorização do autor.

   

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