De: Paulo Vespúcio

Essa é uma estória de amor e de raios. Começa quando chegou na cidade uma linda moça morena-jambo, cabelos compridos, pretos como a noite, descalça, com um vestido florido muito simples, montada sem rédeas e em pelo, numa égua tordilha enorme, muito forte, de crina longa e farta.
Os moradores da pacata cidade saíram nas portas de suas casas para vê-la passar. A imponência da égua Tordilha, ao caminhar compassada, se contrapunha com o olhar doce e singelo de Luara, montada em seu lombo. As pessoas da cidade, hipnotizadas, começaram a segui-la em procissão e silêncio. Um cortejo involuntário que se formava com ar de mistério e cheiro acre de pólvora.
Tordilha se viu obrigada a parar, cercada pela população curiosa. Então, curvou-se como num cumprimento e Luara aproveitou para deslizar em seu pelo macio até o chão. Todos ficaram extasiados com sua presença e beleza. Luara recebeu uma saraivada de perguntas, sem ter espaço para responder. Então, sua voz doce quebrou a euforia daquele povo. Disse ter vindo do norte distante, donde vive a grande floresta machucada. Que se perdeu de sua família quando foram espalhados ou mortos por homens maus.
Disse também ter se mudado para um ranchinho que fica bem perto, na beirada do rio e que estava precisando muito de trabalho. De imediato, os homens em polvorosa se adiantaram oferecendo suas casas para limpar, o que causou um frenesi raivoso entre as mulheres, donas de seus maridos.
Percebendo o desconforto causado por sua presença e o desejo desarvorado dos homens, Luara ofereceu seus serviços como lavadeira. Disse que passaria pela cidade todos os dias recolhendo as trouxas de roupas sujas de quem estivesse precisando. Que como o rio era do ladinho de sua casa, lavar roupas para a cidade seria a melhor coisa para ela. Suas palavras derramaram como um chá de sossego na mulherada ali presente. Até passaram a gostar dela.
Os homens, febris e ardentes de desejo, carregavam de fartura a garupa da égua Tordilha com mantimentos presenteados. É certo que Luara compraria na venda ao lado. Sem ter como recusar, aceita. Com olhares compridos e desejosos, os homens buscaram um ângulo favorável para ver Luara montar agilmente em sua égua, torcendo para que alguma brisa generosa descobrisse a pele morena das coxas roliças, matando suas curiosidades de macho. Luara, tranquilamente, partiu ao som de gemidos graves provocados por fortes beliscões femininos nas costelas dos garanhões de duas patas.
Já longe dos olhares curiosos, Tordilha disparou pelas veredas com Luara em seu dorso abraçando o vento, engolindo e enchendo sua alma de liberdade. Duas em uma só cavalgando sem tempo para chegar.
Chegaram. Era um casebre feito de pau-a-pique coberto com capim trançado, chão e paredes barreados com argila branca. Uma pequenina sala, um quarto, cozinha e um minúsculo cômodo para o banho na bacia.
Na cozinha, ela organizou os presentes na prateleira feita de bambu, antes de preparar uma comida cheirosa com as carnes defumadas penduradas acima de seu fogão à lenha. Parecia feito por um João de Barro. De uma beleza, de uma formosura e muito quente, o fogão.
Com tudo pronto, sentava-se para comer em um tamborete na porta da cozinha, virada para as matas, ouvindo o canto dos pássaros pretos nas laranjeiras se preparando para dormir. Mas não sem antes servir fartamente um jacá de capim fresco para sua inseparável companheira Tordilha. Comiam em silêncio, como se meditassem ao som de seus dentes batendo, triturando o que mascavam. Assim permaneciam, sentindo o cheiro uma da outra. Eram tão iguais!
Tordilha sempre era a primeira a se fartar e ir sem ser questionada para onde. Era livre. Nasceu assim e assim permaneceu sem precisar de permissão, sem saber o que é isso. Liberdade é uma força divina que une por lugares incompreensíveis os que não se sentem donos.
Cochilando com o prato vazio sobre suas pernas, a morena adormecida foi despertada pelo silêncio da passarada que foi dormir.
Levantou-se e foi para a bacia. A água, também livre, não pediu licença para escorrer molhando Luara da cabeça aos pés e por todos os lugares. Um pouco tímida, a água virou fumaça cobrindo a bela moça e a enfeitando de nevoeiro. Ela gosta, chega a assoviar, contorcendo suas coxas, encharcadas de água morna, uma na outra.
Por entre as gretas das paredes do casebre, os bichos da floresta a observavam em seu sono tranquilo, vestida apenas com sua pele suada. A doce brisa, mesmo sendo mulher, fazia questão de refrescá-la com “lambiscadinhas” pelo corpo, até o sol clarear a cama e tudo mais sobre ela.
Como prometido, Luara entrou na cidade montando Tordilha, com a alvorada bordando o céu de vermelho, amarelo e violeta, no horizonte, atrás de suas costas. Tordilha carregava dois balaios pendurados em suas ancas. Com um sorriso de bom dia, passava em frente às casas para recolher as encomendas entregues pelos homens do lugar. Babavam feito crianças antes de jogarem as trouxas no balaio. Baixar e levantar suas pálpebras era o sinal de muito obrigado, dado por ela.
Durante semanas, sem nada de novo, somente com cada vez mais trouxas para lavar, seu compromisso era mantido fielmente, indo e vindo para a cidade em encantamento. Até que: com os balaios entornando de trabalho, seguindo em direção à sua casa, foi notada por Simão. Estava cercado por várias moças faceiras e cheias de gracejos. Ele era um rapaz muito vistoso, fazendeiro rico, solteiro e órfão de pai e mãe. O melhor partido da cidade para as desesperadas do matrimônio. Naquele momento Simão não teve olhos para mais nada e uma magia invadiu seu coração. As moças perceberam e tentaram desviar seu olhar novamente para elas, mas era tarde, mesmo estando ali já não estava mais, foi junto com seu olhar. Elas tentaram tudo. Não conseguindo, começaram a vibrar como caixas de marimbondos furiosos.
Às margens do rio, aninhada dentro d`água com apenas um vestido encharcado cobrindo seu corpo, Luara usava uma pedra para esfregar as roupas enquanto cantava canções de saudade. Tordilha, que pastava próximo dali, se agitou cavando o chão com suas patas, alertando para a chegada de um estranho. Luara paralisou, sem erguer os olhos. Simão tentou se aproximar e foi impedido por Tordilha que chegou bem perto dele bufando, sacodindo de forma ameaçadora sua cabeça e crina. Como ele não fugiu, Tordilha olhou profundamente em seus olhos e aos poucos se acalmou dando passagem para o rapaz. Luara, ainda imóvel, sentiu a aproximação e prendeu o fôlego. Simão, sem querer espantar as éguas, bem devagar, muito devagar, entrou na água. Lentamente, sem olhar para Luara, foi abaixando até se ajoelhar dentro do rio. Luara ainda imóvel, aguardou. Simão pegou uma das roupas e começou a esfregar, ainda sem erguer seus olhos. Não era timidez, era o sossego chegando feito uma oração. Luara soltou o fôlego em alívio. Tordilha, eufórica, lançou seu enorme corpo no ar como numa dança de galopes, empinadas e coices. Luara e Simão não se olharam, não se falaram, mas algo muito forte havia nascido de todo aquele silêncio.
Tempos se passaram e Simão continuava a visitar Luara às margens do rio e a ajudá-la nos afazeres. O silêncio nunca foi quebrado, mas para que se suas mãos falavam tudo ao se esbarrarem entre os tecidos ensaboados. Os tecidos, cansados de tanta timidez e com a ajuda da correnteza do rio, num movimento rápido e preciso se enroscaram, atando as mãos dos dois. Tudo parou, só o som de seus corações apavorados podia ser ouvido. Então seus corpos esmoreceram escorrendo de mãos dadas e olhos cerrados para dentro d`água, deitados docemente pelo destino. Suas faces e seus corpos se esfregavam numa dança conduzida pelo balanço das águas que os cobriam feito cobertor, para um momento tão íntimo. Os longos cabelos negros de Luara abraçava o corpo de seu amante e o arrastava firme para bem perto do seu. Então suas coxas, de pele morena, o apertaram entre elas e ele gemia esfregando delicadamente seus lábios nos dela. Luara os puxou, entrelaçados, para águas profundas e lá se encheram de amor!
Quando Simão saiu do torpor no fundo do rio, sentiu a morte vindo na forma da falta de ar. Olhou para os lados, para cima, para baixo e não viu Luara. Desmaiou. Simão acordou deitado no capim às margens do rio com o sol amornando seu rosto. Desorientado, levantou-se e viu Luara estendendo as roupas lavadas para secar nos arbustos. Tordilha se aproximou dele chamando para brincar. Sem querer entender o acontecido, Simão pegou uma bacia de roupas lavadas e seguiu nas tarefas trocando sorrisos de canto de olhos com Luara. Aquele encontro de corpos e almas se tornaram comuns, mas não menos mágico. O amor dos dois e os encantamentos de Luara cuidavam para que assim o fossem. Mas, como tudo na natureza tem duas faces separadas apenas por fios muito tênues que ao mínimo esbarro desequilibra, com o amor esbarrado não será diferente e ele se deitará no colo da tragédia, sua irmã inseparável.
Luara seguia sua rotina de buscar e entregar no vilarejo, sempre envolta pelo perfume acentuado de mirra que usava para enxaguar as roupas e como poderosa fragrância para espantar os maus espíritos. Num desses dias algo de diferente aconteceu, que mesmo o poder da mirra, a beleza de Luara e a imponência da Tordilha não puderam camuflar. Não era claro, mas o suficiente para as moças da cidade vidrarem seus olhos raivosos na direção da bela moça que passava.
Os dias e meses marcados pelo ir e vir de Luara na cidade, já desfilando em sua barriga uma luz em forma de gente cada vez mais visível e a presença rara de Simão, faziam as moçoilas tremerem seus corpos furiosos, envenenados pela desconfiança quase certa. Aquela luz foi crescendo com tanta força e velocidade que o tempo não pode mais esconder e foi obrigado a revelar para toda a população o que Luara guardava em si, pronto para nascer.
Então, num dia morninho de primavera, Luara e Simão foram vistos pelas moças sorrateiras enquanto os dois lavavam roupas no rio. Tordilha não estava ali para denunciar a chegada do perigo. A desconfiança então virou fato e o fato em fúria e a fúria se tornou visível para Luara, que imediatamente abraçou Simão, o impedindo de ver a fúria se aproximar feito cadelas raivosas. Chutou o balde cheio de mirra derramando seu cheiro forte pelo ar, fazendo uma barreira invisível para o mal. Percebendo que aquilo não as impediriam por muito tempo e que Simão acabaria se virando para ver a origem dos gritos de ódio, ela cantou docemente bem dentro de seu ouvido fazendo-o deitar em seu ombro e dormir. Para as moças, o canto era uma insuportável declaração de amor a Simão. Batia tão forte nas loucas que seus vestidos e cabelos esvoaçavam, enquanto seus gritos eram emudecidos, empurrados pelo vento para dentro de suas gargantas. Correram dali apavoradas, mas não menos determinadas. Chegaram na cidade gritando que a “Nortista” era uma bruxa. Gritavam muito, girando numa ciranda infernal, arrancando tufos de seus cabelos. Todos ficaram impressionados, mas não convencidos. Elas se ajoelharam e choraram de puro ódio. As pessoas, quietas e em silêncio, se reuniram em volta das desesperadas para assistir a possessão da inveja.
Luara não temia o medo, já o conhecia bem. Lutou contra ele quando dela foi roubado sua moradia e seu povo. Assim, sendo a própria coragem, voltou à vila para seus compromissos de vestir de roupas limpas aquela gente. O esperado não tardou a vir. Impávida, tranquila , recolhia trouxas sujas e distribuía as trouxas limpas para seus donos, sob os gritos das moças que babavam fel:
-Nortista bruxa, Nortista bruxa…
Os homens ficaram confusos, mas não demorou para que todas as mulheres da cidade estivessem convencidas, engrossando o coro das donzelas endiabradas. Gritavam que Luara, a nortista, era realmente uma terrível bruxa e que deveria ter o que merecem as bruxas. Tordilha, ao perceber o perigo ameaçador crescendo à sua volta, recolheu em seus pulmões todo ar que as ensandecidas respiravam, para em seguida soltar com imensa força em direção à terra vermelha. Uma gigantesca nuvem de poeira se ergueu compacta escondendo as duas e sufocando os gritos desvairados. As duas desapareceram deixando para trás, no baixar da poeira, olhares incrédulos e caras de nada.
Chegando em casa, Luara retirou os balaios que Tordilha carregava e a égua foi para onde seu desejo a levou, rápida como um corisco. Os afazeres domésticos ocupou Luara no pouco tempo que a imundice das roupas trazidas da cidade deixava sobrar. O zelo, o capricho com sua casa, era o mesmo dedicado às vestes do vilarejo. De prazer com suas tarefas, chegava a dançar. O nome disso, traduzindo para os distraídos, é felicidade!
Deslizava dentro de sua pequenina casa arrumando aqui e acolá, flutuando de um canto ao outro, cantando como cantam os passarinhos, até que algo muito pesado invadiu seu ninho, aos montes. Nem deu tempo de se virar e uma matilha de saias tapou sua boca, sua única defesa e a jogou no chão arrastando-a pelos cabelos, pernas e braços. Bem que seus olhos apavorados tentaram chamar Tordilha. Em vão, pois o poder de seus olhos estava em só ver as belezas e bondades do mundo. Uma das mulheres, bem mais velha, recuou na última hora ao ver a proporção que o ciúme estava tomando. Era tão violento que mesmo seus olhos estando cerrados, não a impedia de assistir a atrocidade. Empurravam Luara, já quase despida, de encontro ao solo. Puxaram-na para debaixo da sombra de uma velha mangueira, onde costumava brincar de bater suas asas no vai e vem do balanço pendurado na majestosa árvore. A matilha, possuída pela ferocidade e vingança, rosnava de puro ódio enquanto rasgavam o vestido de Luara na altura de sua barriga. Uma vez exposto seu ventre, avançaram com suas unhas e dentes afiados, rasgando sua pele, músculos e útero, onde dormia sereno seu bordado em formação, fruto do mais puro amor. Arrancaram seu anjinho de dentro dela às gargalhadas, sem cuidado e respeito algum, jogando-o de uma para outra, saciadas. Num último gesto de crueldade, arrebentaram o fio que unia mãe e filho, colocando-o, já sem vida, sobre o peito de Luara. Dançaram ensanguentadas debaixo da mangueira. Luara juntou toda vida que ainda restava nela, transformando em um grito melódico e musical. Cantou tão alto que por onde fosse que Tordilha estivesse, ela ouviria e ouviu e veio em socorro da sua outra metade que morria. Quando Tordilha chegou, levantou sobre suas patas traseiras e assim permaneceu enquanto seu relincho altíssimo rasgava os tímpanos das malvadas. Então Luara falou em forma de encanto, evocando os raios:
-Senhor do céu que penetra a terra, dando a seu coração, vida e que dela tudo vive. Acorde meu filho tirando-o da morte e assim será seu, meu menino. Que os raios alimentem sua vida e cada vez que isso acontecer, vidas do povo que o matou cairão pelo mesmo poder. Também desejo, por piedade, que somente o mais puro amor sentido por, agora seu filho, poderá quebrar esse encanto.
-Tordilha, proteja essa criança!
A senhora que se afastou da atrocidade, ajoelhou em lágrimas. Num último esforço, Luara arremessou seu filho já sem vida, para Tordilha. Ainda apenas sobre suas duas patas traseiras abriu, como nunca, sua imensa crina em forma de leque. Um estrondo no céu balançou toda a terra, lançando um raio extremamente luminoso que atingiu em cheio o meio das costas do recém-nascido, fazendo-o chorar e o empurrando para se enroscar na farta crina da Tordilha. As cadelas, enlouquecidas pelo choro da criança, avançaram sobre Tordilha com pauladas, berros e mordidas, tentando tirar o menino de sua proteção. Tordilha revidou com coices poderosos que rasgavam o ar e os corpos de algumas delas. Percebendo que não poderia fazer mais nada por sua outra metade morta, desiste de revidar e corre, sabe se lá para onde. Os corpos vazios das bestas que se mantiveram de pé na batalha, ofegantes e transpirando barro, só assistiam Tordilha disparar numa velocidade incrível, desaparecendo no horizonte. As atormentadas pelo ciúme e pela inveja, aos poucos voltaram, moídas pela batalha, para suas casas.
Simão, cansado de esperar Luara às margens do rio, como sempre fazia, resolveu ir até a casa de sua rainha. Procurou em todos os cantos, sentindo apenas seu cheiro de relva fresca pelas paredes e todo o resto. Chamou sem resposta e um frio, de súbito, tomou sua pele quase a descolando de seu corpo. Com profundo temor, circulou em tropeços pelo lugar, prevendo o que temia prever.
Luara, estendida e esfacelada sob a sombra da imensa mangueira, fez derramar as lágrimas de Simão para dentro de sua garganta e um grito mudo foi o que conseguiu sair de dentro dele. Se arrastou por cima de suas pernas completamente bambas e deitou-se sobre sua amada. Certo de ter sido um animal da floresta o autor de tamanha barbárie, excomungou toda a natureza, se recusando, a partir daquele dia, fazer parte dela. Emudecido tomou o caminho mais longo até às margens do rio, carregando Luara em seus braços, feito uma despedida.
Bem lentamente conduziu seu amor até as águas mais profundas. Lá ficaram abraçados, para nunca mais voltar.
Durante dias Tordilha correu por campos e florestas sem parar, carregando o menino em sua crina, parando apenas para amamentá-lo e se alimentar, fugindo, temendo um possível ataque ao recém-nascido. Bem cuidadosa, para não ferir a criança, deitava-se e o empurrava com o focinho até suas tetas. Quando vinha a tempestade, a égua subia até a parte mais alta de uma cerra, donde podia ser vista a cidade assassina. Quieta, muito quieta, Tordilha aguardava um raio para recarregar de vida seu menino. Abocanhava delicadamente os braços da criança e o deitava de bruços sobre um cupinzeiro expondo o centro de suas costinhas que já carregava uma marca escura, alvo para as descargas elétricas. De lá podia ser visto os clarões de intensa energia despencando do céu sob a pequena cidade em desespero, como o encantamento de Luara havia determinado. Quando o raio atingia o menino, ele chorava. Seu choro pintava tudo à sua volta de verde e fazia florir. Os animais das matas se juntavam para aquecê-lo com o ar morno saído de seus pulmões. Em seguida, Tordilha o cobria com sua crina fazendo-o sumir, eletrizado, em meio aos longos fios pretos em cascata que caiam de seu pescoço. Um ritual que só acontecia quando o céu namorava a terra, deixando-a encharcada de vida, tendo os trovões como testemunhas.
O filhote crescia rápido com o leite da Tordilha e os raios que explodiam na sua carne e ossos. Logo já saía sozinho de seu berço e se arrastava para mamar em sua ama, deitando-se sobre as veias grossas do interior de suas coxas. Tordilha o lambia suavemente enquanto mamava, lavando seu corpo e desembaraçando seus cabelos.
Com aproximadamente seis meses, o rebento, depois de mamar abundantemente, foi até a cauda da Tordilha e criou uma bolsa macia de fios e pelos. Ali aninhou esperando para mamar e os raios. Tordilha não precisava mais parar para alimentar o filhote. De onde ele agora estava, só esticava seus bracinhos, agarrava as tetas e levava sua pequena boca sedenta até elas, que esguichavam leite. Os herbívoros os acompanhavam à espera de campos verdes, quando os raios provocavam a vida e a morte. Os carnívoros por presas fáceis, formando assim uma cadeia perfeita de proteção natural às voltas da poderosa égua e seu menino.
Tordilha e a tempestade o alimentaram por um ano, antes dele subir pelas ancas da égua até seu dorso. Os quadris e braços do pequenino foram enroscados pela crina esvoaçante, prendendo-o firme para não cair, enquanto ela, amorosa madrasta, o apresentava à velocidade e ao vento libertador. Tão rápido quanto o tempo ele foi crescendo junto com o vínculo cada vez mais forte com sua protetora. Pulsavam e respiravam em sincronia.
No segundo ano de vida da criança, ele ainda mamava na Tordilha, mas ela sabia que seu leite já não era mais o suficiente para que ele continuasse a crescer saudável, forte e que isso poderia colocar em risco sua vida. Então conversou de animal para animal com os animais que a cercavam mostrando sua preocupação. De pronto os bichos a levaram até uma gruta cravada no meio do cerrado, envolta por milhares de Canelas-de-ema em floração. Tordilha chegou devagar, arisca, acompanhada pelos animais da floresta. Todos pararam imóveis e silenciosos na entrada da gruta. Do meio da escuridão da pequena caverna uma senhora foi se revelando a passos lentos, olhar fixo, segurando um bastão pontiagudo. Ao ver a égua e a criança, se ajoelhou e começou a chorar copiosamente.
Tordilha se aproximou mais um pouco, com cautela, da frágil senhora. Então desfez o laço feito de crina que prendia o menino em seu lombo. Se inclinou para frente e a criança escorregou por seu pescoço até bem próximo da mulher. Mal colocou seus pesinhos no chão, correu até ela, pegou seu bastão pontiagudo e começou a brincar de levantar poeira, riscando o chão vermelho com sua ponta. Com os olhos cobertos de lágrimas, a mulher começou a sorrir, espanando com suas mãos a poeira para vê-lo melhor. Todos os presentes pararam para assistir a festa de poeira e gargalhadas. Terminada a traquinagem, o menino correu para dentro da gruta. Tordilha e a pequena senhora trocaram olhares de paz e ternura. A colossal égua e os animais se afastaram reverenciando. Mas tão certo como há dia e noite, Tordilha sempre estaria a uma distância onde um mínimo choro do filhote a traria de volta como uma fagulha de raio.
Dentro da gruta, com a pureza dos anjos, o filhote menino avançou nas pernas da senhora quando a viu entrar. Constrangida, ela sentou-se e o colocou em suas pernas, acariciando seus cabelos.
-Meu nome é Íris. Te chamarei de Pedro. Seu nome é Pedro.
Ela o afagou docemente, até que ele adormeceu. Então o olhar da mulher se perdeu no vazio, tomada pelo alívio.
Num certo dia, como outro qualquer, a tempestade veio grande, poderosa, trazendo o céu para bem perto da terra. Os trovões balançavam até mesmo as pedras cravadas fundo no chão. Junto vieram também uma forte chuva e ventos cortantes. A mulher sentiu a falta do menino e apavorada o procurou por todos os cantos da gruta. Não o encontrando e já em desespero, correu até a entrada da caverna. Lá perdeu o fôlego, retirado pela visão fantástica que se abriu à frente de seus olhos. Pedro estava posicionado de quatro e recebia sequências de raios no centro de suas pequenas costas, fazendo-as avermelhar em brasa. À sua volta os animais da floresta e Tordilha, assistiam relaxados, com o vento e a chuva açoitando seus corpos. A pequena senhora, imobilizada, contemplou em lágrimas o acontecimento até que suavemente parou. Os animais se foram e o pequenino se ergueu olhando fixo nos olhos da mulher em estado de encanto. Ele aproximou-se dela com seus dentinhos rangendo, esfregando-os uns nos outros, de pura eletricidade.
Como forma de passar o tempo, a mulher esculpia miniaturas em madeira de tudo que tinha à sua volta com seu canivete afiado. Animais e insetos. Pedro sentava-se ao seu lado e brincava dando vida aos brinquedos com sua imaginação. De sua boca fechada, saía um som como se dentro dela morasse um gato que não parava de ronronar, provocado por seus dentinhos em atrito.
Quando já bem molecote, Pedro saiu para passear com Tordilha. Ao chegar próximo da beirada da serra Tordilha empacou, se recusando a ir adiante. Empinava, tocava de roda, tentava voltar pra caverna, até que Pedro saltou para o chão e foi até a beira do penhasco. Lá viu a cidade. Sentou-se sobre seus calcanhares e ficou admirando e rangendo seus dentinhos. Não demorou Tordilha chegar trazendo a senhorinha. Ela sentou-se ao lado de Pedro e implorou, em lágrimas, para que ele nunca fosse naquele lugar. Pegou em sua mão e caminharam juntos de volta para gruta, acompanhados por Tordilha.
Mais alguns anos se passaram e Pedro se tornou um rapazinho forte, vigoroso e muito hábil na arte de fazer miniaturas de madeira, agora com seu próprio canivete. Vez ou outra voltava às escondidas na beirada do penhasco para admirar o vilarejo e se perguntando: por que não?
A senhorinha Íris amanheceu doente num dia nebuloso, nem sequer conseguia se levantar da cama. Tudo que Pedro fazia como remédio colhido da floresta, ensinado por ela, não fazia efeito algum. O tempo foi passando, passando e a doença insistia em levar dona Íris desse mundo. Então Pedro pegou seu canivete, uns pedaços de Tamboril e talos das folhas do Buriti. Se esgueirando pelo cerrado, fugindo do olhar da Tordilha, foi para o vilarejo em busca de socorro. Vestia apenas uma calça marrom com as barras dobradas, tendo como cinto um barbante. Sem camisa, descalço e tomado pela esperança de trocar seus pequeninos bordados de madeira, por um punhado de remédio.
Entrou no vilarejo sob olhares curiosos e o desprezo dedicado aos maltrapilhos, desfilando seu traje simples com um punhado de cacos de madeira nos braços e sua marca escura no meio das costas. Sentou-se debaixo de uma árvore, no centro de uma praça e começou a esculpir, dando formas delicadas aos pedaços de pau. Não demorou e logo recebeu a companhia das crianças com seus olhinhos brilhantes. Um fogo tomou conta de seus coraçõezinhos ao verem o canivete deslizando macio, entalhando passarinhos, borboletas, cavalinhos e tudo que Pedro conhecia bem dos moradores do cerrado. Os adultos, curiosos, também compareceram ao verem a revoada de crianças num mesmo lugar.
-Eu quero, eu quero, eu quero…
…em gritos vindo da molecada, forçaram os adultos a presenteá-los, colocando entre as pernas de Pedro o valor que julgavam merecer pelo trabalho. Sem saber do significado daquela chuva de papéis que caíam sobre ele cada vez que uma criança ganhava um de seus brinquedos, rapidamente entendeu que servia como material de troca. Quando todos foram embora, e Pedro estava se preparando para sair dali, uma criança vestida quase igual a ele se aproximou envergonhada, olhando para o canivete. Pedro não disse nada. Pegou o último pedacinho de Tamboril, muito pequeno e começou a entalhar. A criança sentou-se à sua frente e não tirou os olhos da lâmina que desenhava habilmente no caco de pau. Ao terminar sua obra, Pedro entregou à criança um pequenino Tamanduá-bandeira. A criança, emocionada, disse não ter dinheiro. Pedro disse não ter remédio e que precisava muito. A criança apontou o local onde ele resolveria o problema e se foi aos saltitos. Pedro a chamou de volta:
-Só você tem um desse!
O garoto olhou seu presente e saiu dançando aos gritinhos.
Pedro entrou na farmácia com os olhos esbugalhados, ombros caídos e espremendo o bolo de dinheiro que escapava entre seus dedos como se espremesse o tempo. Tinha pressa. Disse ao farmacêutico que sua mãe está muito doente. O homem, ignorando-o por conta dos trajes, disse não ter remédio para doença, que para ter remédio a doença tem que ter nome. Os olhos de Pedro encheram d’água e a frustração cresceu em seu peito empurrando-o para dentro como um torniquete que o impedia de respirar. A falta de ar fez com que ele apertasse mais ainda o bolo de dinheiro, o que chamou a atenção do farmacêutico fazendo seus olhos arregalarem de ganância. Só assim Pedro teve a devida atenção que merecia. Indagado sobre as dores de sua mãe, respondeu com riqueza de detalhes. O homem então foi até uma das várias prateleiras que o cercavam, pegou um remédio e mostrou a Pedro, olhando fixamente para o bolo de dinheiro espremido em suas mãos. Deixando o remédio no balcão, o ganancioso investiu sobre as mãos de Pedro, pegando todo seu dinheiro antes de entregar o remédio. Sem ao menos contar as notas, mas sabendo que o montante superava e muito o valor do medicamento, se limitou a dizer apenas que era o suficiente e que ele voltasse sempre. Pedro saiu dali correndo feito um redemoinho em direção à sua casa.
Pelo caminho recolheu várias ervas e raízes antes de entrar gruta adentro, angustiado e ansioso para ver o resultado do remédio. Para que a senhora adoentada não percebesse a desobediência de Pedro, ele triturou as ervas e raízes que havia colhido, retirando seu sumo e misturando-o em seguida ao remédio da farmácia. Aquele ritual foi seguido diariamente e mostrava eficácia na melhora da mulher que com tanto amor sempre cuidou dele.
Apesar da sensível melhora da dona Íris, ainda carecia de mais remédio para total cura. Pedro foi obrigado a voltar novamente na cidade levando seus apetrechos de artesão. Entrando no vilarejo, logo chamou a atenção de toda a criançada, que o acompanhou até debaixo da árvore onde já havia antes se sentado. Espalhou seu material de trabalho à sua frente e a meninada ajoelhou à sua volta em adoração, cheios de expectativas para o que viria a seguir. Para cada bichinho nascido da madeira e do canivete, moedas, dinheiro que toda criança tem, choviam numa troca divertida e poética.
Em meio a sorrisos e gargalhadas, uma mocinha se aproximou da roda festiva roubando toda atenção dos olhos de Pedro. Certamente foi o dia que marcou o grande acontecimento, tendo como testemunha os anjinhos da roda. A moçoila se abaixou acariciando as miniaturas de madeira:
-Meu nome é Líli.
Engasgado de tanto encanto, com seus dentes rangendo mais do que nunca, Pedro, de boca travada, lutava heroicamente para partir em mil cacos o que o estava impedindo de falar. Partiu.
-Pedro, meu nome é Pedro.
Líli levanta seu olhar e encontra os de Pedro em fascínio. Ela sorri e ali permanece em silêncio até que o último anjinho se foi. Líli acompanha Pedro até a farmácia em busca de cura para dona Íris. Lá, provocando irritação no dono da farmácia, o ensina sobre o valor que tem suas moedas.
-Até amanhã…
…foram as palavras ouvidas por ele quando Líli partiu. Com certeza, amanhã nunca pareceu ser um lugar tão longe. Despertado por suas obrigações, juntou rapidamente seu material de trabalho. Voltou para sua casa sonhando entre um ramo e outro, uma raiz e outra, uma casca de árvore e outra.
Dona Íris não demorou a apresentar sensível melhora com a mistura feita por Pedro, de remédios da farmácia e do cerrado. Sim, foi um sentimento de alívio e felicidade. Ele a abraçou em festa, dançando em volta de uma fogueirinha que iluminava o lugar. Aos poucos a alegria de Pedro foi ficando amarela, empalidecendo sua face. O que fazer? Que desculpa daria a Íris para o seu desaparecimento parte do dia? Impossível também ficar sem a companhia de Líli. Ao lado da Tordilha murmurava e entre rangeres de seus dentes pensava, pensava e repensava com as mãos espremendo seu crânio entre elas, até que seus olhos iluminaram seu rosto novamente. Pronto, um motivo perfeito. Tordilha bufou, prevendo uma traquinagem perigosa. Pedro gritou e gritou de pura alegria. Íris saiu rápido de onde estava para ver o motivo de tamanha felicidade. Pedro então disse que um fazendeiro da região havia oferecido trabalho para ele em troca de um pouco de dinheiro e mantimentos. Íris, orgulhosa, não se conteve e gritou junto de seu menino. Gritaram e gritaram dançando, amassando sem piedade o chão com seus pés. Tordilha se afastou, quieta, chicoteando com sua cauda para espantar os insetos. Nunca uma mentira havia saído da boca de Pedro. Nunca uma mentira havia causado tanta alegria de uma vez só.
Mesmo convencendo dona Íris, Pedro sempre precisou se esgueirar para que Tordilha nunca o visse pegando o rumo da cidade, o que passou a fazer diariamente. Escondia seu material de trabalho no meio do mato, no meio do caminho, onde o pegava meio apreensivo, quando passava meio embalado e meio embolado no poeirão do chão, para chegar logo. Era só chegar e Líli, a filha do prefeito e toda a criançada, mal davam tempo d’ele organizar seu material de trabalho sob a frondosa árvore. O cercavam enchendo o lugar e corações de alegria.
Pedro e Líli, a cada encontro criavam uma aliança de imensa ternura e inspiração. Pedro esculpindo as miniaturas de pau, enquanto Líli e as crianças as penduravam com linhas por todos os galhos mais baixos da árvore de copa farta e de um verde brilhante. Formava um carrossel de delicadezas que ali era deixado quando todos partiam. Ficava também uma latinha, aberta, para aqueles que desejassem levar algum dos brinquedos talhados pela lâmina e pelo amor. Ao mínimo sopro do vento, os penduricalhos balançavam chocando-se no ar e produzindo um som mágico que atraía a cidade para comprar. As moedas que caíam na latinha, harmonicamente, completavam a sinfonia das madeirinhas batendo umas nas outras.
Num desses fins de tarde, quando Pedro e seus fiéis seguidores arrumavam o material de trabalho e penduravam mais algumas dezenas de penduricalhos nos galhos da árvore, o céu começou a se contorcer, se espremendo até ficar roxo. Pedro e Líli se entreolharam apavorados com o desespero explodindo de seus olhos. Líli pediu que Pedro corresse, que voltasse rapidamente para sua casa. Enquanto falava, o vento começou a jogar os cabelos de Líli e da meninada para cima, para lá e para cá. Pedro ficou encantado com aquele movimento de crinas sacodindo, pois conhecia bem e gostava. O sorriso adocicado em seu rosto foi arrancado pelo grito de Líli.
-Corre!
A molecada, como uma espoleta estourando, se arrancou do chão em disparo para todos os lados. Pedro ainda imóvel, assistindo a crina de Líli espalhando-se enorme no vento furioso, é despertado novamente pelo grito dela, dessa vez mais alto.
-Corre!
Pedro, largando tudo para trás, saiu como se estivesse sendo empurrado pela velocidade do vento, afinal ele também tinha algo a esconder. Pedro corre feito um louco para ficar longe da visão de Líli, pois sabia o que viria a seguir. Líli, tomada pelo medo e pela preocupação com a segurança de seu amor, olhou para trás e assistiu um raio incendiar Pedro. Seu grito sobrepõe-se aos dos trovões e ela tenta ir em seu socorro, mas uma descarga bem próximo a ela fez com que corresse procurando abrigo. Pedro, sempre derrubado pelas fortes descargas vindas do céu, no meio de suas costas, era impedido de assistir à explosão formidável de luz e de morte brilhando intensamente no vilarejo. Tordilha apareceu como uma aparição vinda do nada, estalando seus cascos na terra e com seu relincho que podia facilmente ser confundido com os rasgos dos raios, avisando Pedro que ela já estava ali. Quando chegou a calmaria, Pedro se ergueu e trocou olhares com Tordilha tentando se desculpar pelo conselho desobedecido. Na volta para casa, Pedro contou toda a história para Tordilha. Que estava amando, cheio de amiguinhos, ganhando dinheiro para comprar comida, remédios e pediu para que não contasse para dona Íris sobre suas idas ao vilarejo. Tordilha jamais o trairia.
Dona Íris e a fogueira ficaram ao lado de Pedro enquanto a noite reinava afagando o silêncio de seu sono.
No dia seguinte, ao aproximar-se da pequena cidade, ouviu os sinos da igreja badalarem aflitos, cheios de dor. Apertou o passo e seus passos o colocaram diante de um cortejo fúnebre, com quatro caixões sendo levados rumo ao cemitério. Líli também acompanhava o cortejo. Pedro foi até sua árvore, bagunçada feito cabelos na tempestade. Os penduricalhos de madeira bordados com canivete, estavam enroscados nas linhas que os seguravam suspensos na sombra fresca da antiga amoreira. Não demorou e toda a criançada chegou para a quase impossível tarefa de desembaraçar. Desembaraçar e esperar até que Líli voltasse para juntos desembaraçar. Voltou. Líli, em profundo silêncio, com os olhos rasos d’água e bem devagar entrou na sombra da amoreira, incrédula e radiante de felicidade ao ver seu amado vivo e bem. Abraçou-o por trás, deslizando suavemente seus dedos na pele jambo e fina de Pedro.
Pedro e Líli, entre um desembaraçar e outro, vez ou outra embaraçavam suas mãos enquanto dividiam seus segredos. Pedro contou que Íris, a mãe que o criou desde quando era bebê, disse que ele havia nascido morto e sua verdadeira mãe o encantou antes de morrer, entregando-o para os raios. Que sua vida dependeria deles para sempre, espantando a morte que dele se aproximasse. Disse ser a única coisa que ela sabia e era o que ele também sabia.
Líli contou sobre uma maldição que há muito tempo foi jogada na cidade, liberando os raios para matar sua gente, depois que as mulheres do lugar fizeram algo terrível, que a vergonha e o remorso proibiam contar para os mais novos. Pedro ouviu curioso, sem entender como os raios poderiam matar se lhes davam a vida e faziam pulsar seu coração e o da terra. Ali ficaram, protegidos por crianças, dividindo histórias por dias e meses entre o ir e vir de Pedro à cidade.
O tempo fez com que a amoreira se tornasse um templo de madeirinhas bordadas, milhares delas, fitinhas coloridas, dezenas de crianças e puro amor. Todos admiravam a árvore magnífica que enfeitava o centro da praça, até que um cheiro suave e hipnótico espalhou-se no ar. Foi Líli, que sem querer e não podendo conter, provocou.
Líli estava diferente, definitivamente diferente, menos para ela e para as crianças. Todos os garanhões solteiros da cidade abriram suas ventas, arregalaram os olhos e se empinaram na sua direção, com galanteios concedidos somente às mulheres. Não meninas, não, apenas às mulheres. Pedro não era diferente, mas com uma diferença que fazia toda a diferença: o desejo lambuzado de amor! Líli havia se tornado mulher. Não só uma mulher, mas uma mulher de fino trato, bonita e filha do prefeito. Melhor partido não havia. Só que ela já estava decidida num enroscar e outro de mãos, para quem daria de presente seu coração. Mas isso não passaria desapercebido e de forma alguma aceita sem antes uma luta feroz. Se necessário fosse, uma batalha covarde, traiçoeira, pelos pretendentes alvoraçados do vilarejo e por seu pai, que agora a via como um rentável negócio de matrimônio. As chances de Pedro eram inexistentes e o preço por ficar beirando Líli poderia se mostrar muito acima de suas possibilidades e resistência.
A árvore que abrigava somente amor e alegria, recebeu a visita do ódio que entrou porta adentro sem ser convidado. Sempre a uma meia distância, evitando serem percebidos, os solteiros, “babentos” de cio, circulavam a árvore amaldiçoando a poesia que morava debaixo dela.
A maldade tem cheiro e gosto. Exalava tão forte que Tordilha, mesmo com seu focinho enterrado na relva, pôde sentir. Correu até a gruta e fez com que Íris a acompanhasse até à beira do penhasco. Íris, olhando para o vilarejo, caiu sobre suas pernas desejosa que não fosse verdade o que seu olhos afirmavam.
Pedro, ao voltar para casa, foi recebido pelo desespero de Íris, que o circulava chorando, implorando que ele a atendesse e nunca mais voltasse naquele lugar. Usou todas as palavras que significavam implorar, mas os ouvidos de Pedro estavam lacrados pelo desejo e pelo amor. Ele apenas sorria, embriagado pela imagem de Líli que o tempo todo flutuava à sua frente.
Saindo às escondidas, como se Íris e Tordilha ainda não soubessem, continuou a frequentar diariamente o povoado, sempre sorrindo e tomado pelo amor. Inocentes, alheios ou cegos a qualquer tipo de ataque, Pedro e Líli não puderam sentir a maldade sendo construída às suas voltas. Pelas esquinas, bodegas e casas, um boato monstruoso começou a ser lapidado a marretadas na forja do Diabo. Murmuravam pelos cantos que Pedro atraía as crianças para debaixo da árvore, esperando a primeira menstruação das meninas, com objetivo se fartar, aparando com suas mãos para depois engolir. Espalhavam que dentro dele morava uma alma ruim, que se alimentava da pureza de meninas.
Quanto mais o boato e a fúria se espalhavam no vilarejo, mais Tordilha e Íris se agitavam angustiadas em meio às Canelas-de-ema que se despetalavam em comunhão de dor e desespero, com as duas.
Um dia, Pedro, mais feliz do que qualquer dia, com seu maior sorriso no rosto e rangendo alto seus dentes, que também significava felicidade, partiu rumo à sua amada, alheio ao desespero de suas protetoras que o cercavam. Inutilmente. No meio do caminho começou a ouvir choros e gritos vindos da pequena cidade. Apertou o passo e seu sorriso na cara. Uma imagem aterradora foi se revelando na medida que se aproximava da árvore, desviando da multidão à sua volta. A árvore estava carbonizada. Líli e as crianças, incrédulas, choravam e gritavam em meio às cinzas e carvão, tentando salvar o que não estava mais ali.
As lágrimas de Pedro, que nunca haviam escorrido por seu rosto, o impediam de ver a direção que vinham os empurrões, murros e pontapés desferidos pela multidão colérica, que aos brados gritavam:
-Monstro.
Líli e as crianças bem que tentaram socorrê-lo, mas em vão. A parede de corpos era compacta, intransponível e decidida a matar. Empurraram Pedro contra uma parede e gritando:
-Morre…
O apedrejaram com rochas e calúnias. As crianças correram baixo, sob as pernas da multidão, abrindo caminho para Líli atravessar. Ela se jogou entre Pedro e a linha de fogo, que era possuída pelo incompreensível. Esse ato de bravura, alimentado pelo amor, a fez ser alvejada em seu rosto. Ela desmoronou em silêncio, e o silêncio se fez enquanto Pedro a acolhia em seus braços. Iris chegou, acompanhada por Tordilha. Em desespero, fez-se ouvir aos gritos, contando para toda a cidade quem era Pedro e o que as mulheres dali haviam feito com sua mãe: que Pedro era um encantado de vida e a cidade, encantada de morte; que só Pedro poderia salvá-los da dor que provocaram em sua mãe; que agora todos iriam morrer. Os detalhes que Íris descrevia eram tão claros que podiam ser vistos as cores, o lugar, o cheiro, a violência e a dor.
Todo aquele silêncio da multidão permitiu que Pedro também ouvisse a barbárie sofrida por sua mãe e o pedido de Líli, em seu último momento de vida: que perdoasse a insanidade de seu povo. A fúria vestiu Pedro dos pés à cabeça, e ele rangeu os dentes tão alto que o céu tremeu, e um manto escuro, trazido por ventos raivosos, cobriu a cidade rapidamente. Logo os raios vieram, matando aos montes. Pedro tomou Líli em seus braços e gritou:
-Tordilha!
De pronto, ela se inclinou para que Pedro, Líli e Íris a montassem. Tordilha disparou rumo à gruta, deixando para trás gritos de morte e dor, banhados pelos clarões dos raios que abrasavam a pequena cidade.
Chegando à gruta, Tordilha desceu os três de seu lombo. Pedro deitou-se ao lado de Líli, sem vida, na relva. Tordilha e Íris, em silêncio, assistiam à sua dor, até que a voz suave de Íris quebrou o silêncio:
— Perdoa, é o desejo dela. Perdoa!
Pedro, em lágrimas, rolou por cima de Líli, apoiado somente em seus pés e mãos, fazendo sobre ela uma cúpula.
— Eu perdoo.
Imediatamente, os raios cessaram na cidade e o céu começou a se movimentar em direção à serra, onde Pedro estava. A população, atônita, hipnotizada, em transe, deixou seus mortos para trás e seguiu as nuvens.
Em frente à gruta, Íris, Tordilha e todos os animais da floresta assistiram em paz o céu se contorcer sobre suas cabeças e disparar seus raios sobre as costas de Pedro, debruçado em arco sobre Líli.
Os moradores do vilarejo se aproximaram a tempo de ver o acontecimento magnífico de puro amor. Vários raios atingiam, de uma vez só, as costas de Pedro, formando um campo de luz tão forte que quase não se podia ver Líli dentro dele. Pedro aguentava a tremenda força vinda do céu, pois era filho também dela. Foram três dias de pura energia, até que tudo parou. Pedro se ergueu, cansado.
— Líli, levante, porque eu te amo!
Líli abriu seus olhos e se ergueu, sendo apoiada pelas mãos trêmulas de Pedro. Pedro rangeu os dentes tão forte que faíscas voavam, iluminando seu rosto como se fosse um santo. Se abraçaram com tanta ternura que a paz veio correndo para abençoar. E todos se acalmaram de vez!
Pedro passaria, desse dia em diante, a ser o único amor de Líli e um herói para a cidade. Quando a tempestade vinha, Pedro corria até o alto da serra para receber de bom grado os raios. De longe, a população assistia, encantada, o espetáculo de luz e tremenda energia, quando Pedro e o céu davam as mãos.